“O Pedro que se aguente; passa o verão na casa de campo!” disse João, irritado, enquanto Ana olhava em silêncio para um e‑mail que mudara tudo

Histórias
A decisão cruel revelou um egoísmo intolerável.

Não há descanso que resista. O João precisa de repousar. Anda a matar-se no trabalho para sustentar a casa. O que lhe faz falta é companhia de adultos, gente normal, não passar as férias a correr atrás de uma criança pela praia.

Ana desviou os olhos da sogra para o marido. João estava de pé, com os ombros ligeiramente encolhidos, mas com aquela segurança de quem sabe que tem atrás de si um reforço de peso.

— E em que momento pensavam contar-me?

Enquanto falava, Ana fechou o fecho da mochila do filho.

— Amanhã, no aeroporto? Mesmo à frente do balcão de check-in? “Surpresa, Ana, vamos viajar sem o nosso filho. Telefona à tua mãe e pede-lhe que venha já buscar o Pedro”?

O rosto de João cobriu-se de manchas vermelhas. Ele detestava quando a mulher falava assim: baixo, sem levantar a voz, mas com cada palavra a cair como um prego no chão.

— Mas que diferença faz quando íamos dizer? — atirou ele, sacudindo a mão, impaciente. — O importante é que o assunto está decidido. A minha mãe vai connosco. Acabou. Sou eu o homem da casa e tomei uma decisão. Não faças uma cena.

— Não estou a fazer cena nenhuma.

Ana colocou a mochila ao ombro e chamou, sem se alterar:

— Pedro, veste o casaco!

Do quarto surgiu a correr um rapazinho de sete anos, arrastando consigo um avião de brincar novinho em folha.

— Mãe, já vamos?

— Vamos, meu amor. Calça os ténis.

Maria fez estalar a língua, irritada.

— Para onde é que o vão levar a estas horas? O voo é amanhã de manhã. Deixem o miúdo dormir.

— Saímos agora — respondeu Ana, seca.

João pestanejou, desnorteado. Toda aquela pose de chefe de família se evaporou num instante.

— Ana, que ideia é essa? Para onde vais agora? E para quê?

— Para casa da minha mãe.

Com calma, Ana vestiu o casaco.

— Já que o Pedro vai passar o verão no campo, levo-o hoje. Amanhã sigo de lá diretamente para o aeroporto. Encontramo-nos no terminal.

João soltou o ar, visivelmente aliviado. Pelo ar dele, tinha estado à espera de uma discussão monumental, pratos partidos, gritos sobre divórcio e portas a bater. Mas não. A mulher resmungara um pouco e acabara por aceitar. Como sempre.

— Está bem, então.

Até tentou esboçar um sorriso.

— Vês, mãe? Eu disse-te que a Ana é uma mulher sensata, percebe as coisas. Vai lá, Ana. Tem cuidado na estrada. Amanhã, às oito, junto aos balcões de check-in.

— Claro — respondeu ela, antes de fechar a porta atrás de si.

O enorme átrio do aeroporto fervilhava de ruído. Correntes de ar atravessavam a zona dos balcões, malas rolavam em todas as direções, passageiros apressados consultavam documentos e telemóveis. João olhava a cada minuto para o grande painel eletrónico das partidas.

Ao lado dele, apoiada na pega de uma mala de viagem acabada de estrear, estava Maria. Vestia uma camisa clara de linho e um chapéu de abas largas que lhe dava um ar curiosamente parecido com um cogumelo.

— Onde é que ela se meteu?

João verificou o telemóvel pela décima vez.

— O check-in já abriu. Ainda vamos apanhar uma fila enorme.

— Ai, é sempre a mesma coisa, ela demora-se em tudo.

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