“Agora tens pena de dar sopa ao teu próprio marido?” disse Beatriz com desdém, provocando Ana diante da cozinha saqueada

Histórias
Ambiente familiar sufocante, comportamento egoísta e inaceitável.

No hall de entrada, o ar vinha pesado, misturando cheiro de bacon frito com o odor azedo de corpo por lavar. Sobre o tapete da porta estavam atiradas umas botas de mulher, cobertas de lama. Das solas escorrera uma poça acinzentada para os azulejos. Da cozinha chegavam o ruído molhado de alguém a mastigar e o som abafado da televisão.

Ana tirou os sapatos devagar. Depois despiu o casaco. Tinha as pernas doridas depois do turno inteiro em pé. Tudo o que queria era uma caneca de chá quente e uns minutos de silêncio.

Mas, à mesa da cozinha, estava Beatriz, a irmã do marido. Vestia o robe de Ana.

Beatriz comia massa com carne picada diretamente de uma frigideira antiaderente cara. Usava um garfo de metal. Cada arranhão do talher contra o revestimento fazia um som agudo, insuportável.

— Olá — atirou Beatriz, sem sequer engolir primeiro.

Ana ficou parada à entrada. Em cima da mesa via-se a panela grande da sopa completamente vazia. Ao lado, a embalagem aberta do queijo fatiado estava largada como lixo. No lava-loiça acumulava-se uma montanha de pratos gordurosos.

— Onde está a sopa? — perguntou Ana, num tom calmo demais.

Beatriz encolheu os ombros.

— Acabou. O João passou cá à hora de almoço. Gostou.

Ana olhou para a panela de cinco litros.

— Cinco litros? Em menos de um dia?

— Eu também comi, não é? E o João levou uma caixa para o trabalho. Qual é o problema? Agora tens pena de dar sopa ao teu próprio marido?

Beatriz pousou o garfo. No fundo da frigideira, viam-se riscos brancos e fundos, abertos no revestimento. Aquela frigideira tinha custado quarenta euros.

Dentro de Ana, alguma coisa se fechou. Como uma fechadura pesada, fria, a cair no lugar.

Foi até ao frigorífico e abriu a porta. Lá dentro não havia quase nada. Nem iogurtes, nem peito de frango, nem fiambre. Apenas um frasco de mostarda barata esquecido numa prateleira.

— E os hambúrgueres caseiros? — perguntou.

— Esses já foram ontem. Ana, mas estás a fazer esse drama porquê? Eu devia ficar aqui cheia de fome?

Ana tirou da mala os talões das compras. Guardava-os sempre.

— Só este mês, gastei quatrocentos e cinquenta euros em comida.

Beatriz revirou os olhos.

— Lá vem ela. A contabilista.

— Moras aqui há oito meses. Oito. E, nesse tempo todo, não compraste nem um pão.

— Eu estou à procura de trabalho! — levantou a voz a cunhada.

— Não. Tu andas à procura de alguém que te sustente no Tinder. E comes à minha custa.

Ana pegou na frigideira vazia, colocou-a no lava-loiça e abriu a torneira da água fria.

— Ei! Eu ainda não tinha acabado! — protestou Beatriz.

— A tua refeição acabou. A minha paciência também. Sai da cozinha.

Beatriz soltou um bufo indignado. Arrancou o robe de Ana do corpo, atirou-o para uma cadeira e desapareceu para a sala.

Ana não lavou a loiça. Limitou-se a encher um copo de água e bebeu-o de uma só vez. Depois pegou no telemóvel e escreveu ao marido:

“Passa no supermercado. Não há comida em casa.”

A resposta chegou passado um minuto.

“Estou cansado. Manda vir qualquer coisa. Tu tens dinheiro.”

Ana sorriu sem humor. Tinha dinheiro, sim. Mas era dela.

Ao fim da tarde, a porta da entrada bateu. João apareceu no corredor.

— Ana! Então, o que há para jantar?

Ela estava sentada no sofá, com o portátil no colo.

— Não há comida — respondeu.

João entrou na sala sem tirar os sapatos.

— Como assim, não há? Ainda ontem o frigorífico estava cheio.

— A tua irmã devorou tudo. Com a tua ajuda.

João soltou um suspiro pesado e passou a mão pelo rosto, como se limpasse um cansaço invisível.

— Ana, lá estás tu outra vez. A Beatriz é nova, tem o metabolismo rápido.

— Rápida é a lata dela. Eu pago trezentos e oitenta euros de prestação da casa. Este apartamento é meu.

— Somos uma família! — berrou João. — Eu pago as despesas!

— As despesas são sessenta euros. A comida, quatrocentos e cinquenta. A tua irmã já me custou três mil e seiscentos euros nestes oito meses.

— Tu reduzes tudo a dinheiro!

João virou-lhe as costas e foi para a cozinha. Pouco depois, ouviu-se o estrondo de tachos e gavetas a serem abertos.

— Ana! — gritou ele lá de dentro. — Nem ovos há aqui!

— Eu sei.

Ele voltou para a sala furioso. Tinha manchas vermelhas a subir-lhe pelo rosto.

— Dá-me dez euros. Vou ali comprar uns kebabs.

Ana fitou-o com atenção. Como se, pela primeira vez, estivesse a ver um estranho.

— O teu cartão está no teu bolso.

— Paguei a prestação do carro. Tu sabes que estou a zeros até receber.

— Então hoje fazem os dois um dia de jejum.

João bateu com o punho no aro da porta.

— Estás a gozar comigo? A minha irmã está cheia de fome! Eu estou cheio de fome!

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