“Agora tens pena de dar sopa ao teu próprio marido?” disse Beatriz com desdém, provocando Ana diante da cozinha saqueada

Histórias
Ambiente familiar sufocante, comportamento egoísta e inaceitável.

— És minha mulher ou és o quê?

Ana ergueu o queixo, sem se mexer.

— Sou a patrocinadora, João. Mas a minha campanha de generosidade acabou.

Ele soltou uma obscenidade baixa e feia, daquelas ditas só para ferir, e saiu a bater com a porta de entrada. Voltou cerca de uma hora depois, trazendo dois kebabs embrulhados em papel e uma lata de cola. Beatriz apareceu no corredor quase aos saltinhos, feliz por ver o irmão com comida nas mãos. A Ana, claro, não ofereceram nada.

Ela não se importou. Nem um pouco.

No dia seguinte era sábado. De manhã, uma chave que não era dela entrou na fechadura.

A porta abriu-se com um rangido discreto. Ana ainda estava deitada, mas acordada. Ouviu passos no corredor: pesados, arrastados, demasiado familiares.

Maria. A sogra.

— João! Beatriz! Trouxe panquecas! — anunciou uma voz estridente, como se a casa lhe pertencesse.

Ana vestiu o robe por cima da camisa de dormir e saiu do quarto.

Maria estava no hall a descalçar as botas com todo o à-vontade do mundo. Numa das mãos segurava uma caixa de plástico.

— Ah, ainda a dormir, Ana? — disse, com uma censura melosa. — Já são onze horas.

— É o meu dia de descanso.

A sogra apertou os lábios, ofendida.

— Uma esposa decente levanta-se para dar pequeno-almoço ao marido. Não fica na cama a engordar o colchão. Onde está o meu menino?

Da sala surgiu Beatriz, amarrotada, de cabelo desgrenhado.

— Mãe, ontem ela deixou-nos sem comer. Fez um escândalo por causa de uma sopa.

Maria levou a mão ao peito, teatral.

— Tu perdeste o juízo de vez? Deixar uma criança com fome?

— A “criança” tem vinte e quatro anos — respondeu Ana, sem alterar a voz. — E come como um estivador depois de um turno duplo.

— Como te atreves! — Maria avançou um passo, vermelha de indignação.

Ana não recuou.

— A chave. Em cima da mesa.

A sogra parou, sem entender.

— O quê?

— A chave do meu apartamento. Pouse-a no aparador.

Maria trocou um olhar rápido com a filha.

— Não vou pousar coisa nenhuma. Esta casa é do meu filho.

— Este apartamento foi comprado antes do casamento. Com o meu dinheiro. O seu filho está aqui registado apenas temporariamente. A chave, por favor.

Maria atirou o molho para cima da madeira. O som metálico espalhou-se pelo hall.

— Valha-me Deus, até um pedaço de pão negas à família! Coitado do meu João. Casou-se com uma sovina sem coração.

Depois disso, enfiou-se na cozinha. Beatriz foi atrás dela quase a correr. Do corredor, Ana ainda lhes ouviu os cochichos venenosos.

Uma hora mais tarde, Maria foi-se embora.

Ana entrou na casa de banho para lavar a cara. Na prateleira, os seus frascos estavam alinhados como sempre. Ou quase. Faltava um. O creme de noite, o caro, de setenta euros, tinha desaparecido.

Ela voltou ao corredor.

— Beatriz. Onde está o meu creme?

A rapariga nem levantou os olhos do telemóvel.

— Sei lá. A mãe pegou numa coisa para pôr nas mãos. Disse que estavam secas.

— Nas mãos? Com o meu creme antienvelhecimento com retinol?

— Credo, que diferença faz? Para de choramingar por causa de um boião. Compras outro. Não ganhas assim tão bem?

Ana ficou em silêncio. Não valia a pena gastar palavras. Regressou ao quarto, vestiu-se e pegou na mala.

Precisava de ir a uma loja de bricolage.

O caminho fazia-se em quinze minutos a pé. O tempo estava horrível. O vento de novembro metia-se por baixo do casaco e cortava a pele como lâmina. Ana apertou o passo.

No hipermercado, pegou num carrinho e dirigiu-se diretamente à zona das ferragens. Escolheu duas chapas grossas de aço com argolas, um conjunto de parafusos para metal, uma cola epóxi resistente e um cadeado.

O cadeado era pesado, de pendurar, com combinação. Um daqueles que não se abrem sem rebarbadora e paciência.

A seguir, passou por uma loja de eletrodomésticos. Comprou um frigorífico pequeno, quase do tamanho de uma mesa de cabeceira, e pagou a entrega urgente.

Quando regressou a casa, já eram perto das três da tarde.

O apartamento estava vazio. Beatriz tinha saído para passear. João encontrava-se na garagem com os amigos.

Ana pôs mãos à obra.

Foi buscar a aparafusadora — dela, comprada com o dinheiro dela — e encostou as chapas de aço às portas do grande frigorífico branco da cozinha.

Furar a carcaça metálica não foi fácil. O material resistia, os parafusos rangiam, a máquina aquecia-lhe na mão. Mas a raiva dava-lhe uma força limpa, quase tranquila.

Meia hora depois, duas argolas robustas brilhavam na porta do frigorífico. Ana passou por elas o arco do cadeado, fechou-o com um estalido seco e puxou. Nada cedeu. Estava preso para valer.

Em seguida, esvaziou os armários da cozinha. Pacotes de arroz, massas, cereais, conservas, tudo foi levado para o quarto. Na porta do quarto, instalou uma fechadura simples, com chave. Aquilo, comparado com o frigorífico, foi quase fácil.

Às cinco da tarde, os homens da entrega trouxeram o mini-frigorífico. Ana mandou colocá-lo junto à cama e ligou-o à tomada.

Só então se sentou, abriu a aplicação de um supermercado caro e fez uma encomenda para si.

Casa da Encarnação