A campainha tocou às sete e meia da noite. Limpei as mãos ao pano da loiça, aproximei-me da porta, espreitei pelo óculo — e não reconheci a pessoa do outro lado.
No patamar estava uma mulher de casaco escuro. Sapatos de salto, mala ao ombro, unhas impecáveis: parecia pronta para uma reunião importante. Só que aquela reunião, pelos vistos, tinha sido marcada apenas por ela.
— Ana? — perguntou, num tom firme, quase a impor-se. — Sou a Beatriz. Precisamos de conversar.
Fiquei sem responder. Lá dentro, vindo da sala, ouvia-se o som de desenhos animados; o João via televisão antes de ir para a cama. A casa cheirava a trigo-sarraceno com hambúrgueres caseiros, um serão normal de quinta-feira. E, de repente, à minha porta, surgia uma mulher que eu só conhecia de fotografias no perfil de outra pessoa.
— Eu estou com o Carlos — acrescentou ela, como se isso esclarecesse tudo. — Deixe-me entrar, por favor. Isto não é conversa para se ter no corredor.

Eu podia ter mantido a porta fechada. Tinha todo o direito. Mas alguma coisa dentro de mim disse: ouve o que ela tem para dizer. Talvez venha a ser útil. Talvez seja precisamente hoje.
O divórcio tinha acontecido dois anos antes. Pelo tribunal, como mandam as regras. O João tinha cinco anos na altura, e o juiz fixou a pensão de alimentos: vinte e cinco por cento do salário. Cerca de cento e cinquenta e cinco euros por mês. Não era uma fortuna, nem nada que mudasse vidas; era uma quantia comum, suficiente para pagar atividades, roupa e aquela parte da existência do filho que o Carlos deixou de ver no momento em que saiu de casa.
Durante o primeiro ano, ele ainda pagou. Nem sempre na data certa, mas pagou. Depois começaram as falhas. Um mês, depois outro, depois três seguidos. Eu telefonava, e ele respondia: “Daqui a pouco transfiro.” Eu escrevia mensagens; ele lia e ficava em silêncio. Uma vez, fiz uma tabela com datas, valores e meses em falta. Enviei-lhe tudo pelo telemóvel. Ele abriu a mensagem. Não escreveu uma única palavra.
Em vinte e quatro prestações, ao longo de dois anos, chegaram onze. Treze vezes, o dinheiro simplesmente não apareceu. Eu fiz as contas — sei fazê-las, é o meu trabalho. Quem trabalha em compras aprende a conhecer o peso de cada euro e de cada documento. Mil e oitocentos euros. Era isso que o Carlos devia ao próprio filho.
Uma semana antes, o João tinha-me falado de uma mochila. Em setembro ia para o segundo ano e queria uma azul, com um foguetão, igual à que vira num colega. Peguei no telemóvel e comecei a somar nas notas. Farda: quarenta euros. Livros e cadernos de apoio: trinta e cinco. Material escolar: quinze. Mochila: cinquenta. Ténis para a escola, fato de treino, saco para a ginástica. Preparar uma criança para o regresso às aulas dava perto de trezentos e oitenta euros. Foi aí que percebi: aqueles mil e oitocentos euros não eram uma dívida abstrata. Eram quase cinco regressos às aulas. Cinco vezes vestir, calçar e equipar um filho. E, enquanto isso, o Carlos tinha comprado um telemóvel novo e nem uma vez perguntou como estava o João.
Nessa mesma noite, tirei da gaveta a decisão do tribunal, sentei-me à mesa e preparei o requerimento para avançar com a cobrança da pensão em atraso. Juntei o extrato da conta, com cada transferência recebida e cada ausência assinalada. No dia seis, o pedido foi aceite. Em três dias, o processo estava em andamento.
E agora era a Beatriz que aparecia à minha porta.
Abri mais a porta.
— Entre. Vamos para a cozinha.
Ela passou por mim. O perfume dela, denso e adocicado, espalhou-se logo pelo corredor. Os saltos bateram no chão de mosaico. Da sala, o João gritou:
— Mãe, quem é?
— Não é ninguém, querido. Continua a ver o desenho animado.
Fechei a porta do quarto dele e segui atrás da Beatriz.
Na cozinha, a luz estava acesa. Ao lume, já apagado, arrefecia a frigideira com os hambúrgueres. A janela ficara entreaberta, e da rua entrava o fresco da noite misturado com o cheiro do asfalto molhado. Um fim de tarde igual a tantos outros. Só a visita destoava de tudo.
Sobre a mesa estava uma pasta de documentos. Eu tinha-a deixado ali de manhã, por hábito profissional: gosto de pôr papéis em ordem antes de precisar deles. A Beatriz nem reparou. Sentou-se num banco, pousou a mala sobre os joelhos e começou a olhar em redor como se estivesse a avaliar o apartamento antes de o comprar.
Eu, entretanto, tirei o telemóvel do bolso e coloquei-o na prateleira por cima da bancada. Virei o ecrã na direção dela, encostei-o a um frasco de cereais para não cair e carreguei em gravar.
Na minha própria casa, eu podia registar o que se passava. Também isso eu tinha confirmado na semana anterior, quando tratei do processo. As mãos não me tremiam. No trabalho, negoceio com fornecedores que mentem olhando-nos diretamente nos olhos, sobre prazos, preços e condições. Aquilo não era muito diferente.
— Quer chá? — perguntei.
— Não — respondeu ela, seca. As unhas compridas, pintadas de bordeaux, tamborilaram no tampo da mesa. — Não me vou demorar.
Abriu a mala e retirou uma folha dobrada.
A Beatriz desdobrou o papel e colocou-o à minha frente. A folha ainda estava morna, provavelmente por ter ficado apertada dentro da mala, junto ao corpo. Inclinei-me para ler. No topo, em letras impressas, estava escrito: “Declaração de desistência da cobrança da pensão de alimentos”. Tinha sido tirado numa impressora comum, com um tipo de letra mal alinhado; em baixo havia uma linha vazia para assinatura. Ela devia ter descarregado aquilo da internet, de algum site cheio de modelos prontos, daqueles em que metade dos documentos nem sequer tem validade jurídica.
Percebi-o no mesmo instante. No meu trabalho, vejo contratos todos os dias: os bem feitos e os que tentam apenas parecer oficiais. Aquele pertencia claramente ao segundo grupo. Mas eu fiquei calada.
