— Assina aqui — disse Beatriz, apontando com a unha para a linha em branco no fundo da folha. — E nós deixamos de te incomodar.
Levantei os olhos para ela. Devia ter uns trinta e cinco anos. Bem arranjada, segura de si, daquelas pessoas que entram numa casa alheia como se já tivessem direito a um lugar à mesa. Estava sentada na minha cozinha com uma naturalidade quase ofensiva, como se a dívida fosse minha e não de Carlos.
— Para quê? — perguntei.
Beatriz endireitou as costas, satisfeita por ter chegado à parte que, na cabeça dela, explicava tudo.
— Eu e o Carlos queremos constituir família. Precisamos de avançar com um crédito à habitação, dar a entrada. Faltam-nos quatro mil euros. Se tu abdicares da pensão, daqui a ano e meio conseguimos equilibrar tudo. Mas, assim, ele está sempre a transferir-te dinheiro e as contas não fecham.
Sempre.
Quase me ri. Em dois anos, de vinte e quatro meses, tinham entrado onze pagamentos. Era aquilo o “sempre”? Fiquei a imaginar como ele lhe teria contado a história. Teria dito que pagava certinho, sem falhar? Ou também inventara o valor?
Não discuti. Ainda não. Cruzei os braços e limitei-me a ouvi-la.
— Tu trabalhas — continuou ela, passando para o “tu” com uma facilidade indecente, como se fôssemos amigas de longa data. — Desenrascas-te sozinha. O miúdo anda vestido, calçado, não lhe falta nada. Para que precisas dessa pensão? É só uma formalidade.
Formalidade.
Cento e cinquenta e quatro euros por mês eram, para ela, uma formalidade. Para mim, eram as aulas de robótica a que o João ia às terças-feiras. Eram o casaco de inverno que lhe comprara em novembro. Eram três consultas no dentista, porque os dentes de leite não esperam que os adultos resolvam as suas contas.
Beatriz aguardava a minha resposta. Batia com as unhas na mesa: compridas, impecáveis, pintadas de bordeaux. Para ela, tudo aquilo devia parecer simples. Eu assinava, a folha ficava resolvida, e o assunto desaparecia.
— O Carlos sabe que está aqui? — perguntei.
Houve uma pausa. Breve, mas suficiente para eu a notar. Beatriz ajustou a mala sobre os joelhos.
— Isto foi decidido pelos dois — respondeu.
— Então, se foi pelos dois, ele que venha cá. Que se sente à minha frente e me diga na cara: “O meu filho não me interessa, não quero pagar por ele.” Aí conversamos.
Os olhos dela estreitaram-se. Não estava à espera. Tinha vindo preparada para encontrar uma ex-mulher cansada, encolhida, talvez assustada, que assinaria para se ver livre da pressão. Mas eu não me assustei. E não assinei.
— Tu não percebes — disse Beatriz, agora com a voz mais dura. — Ele está numa posição muito difícil. Sente-se dividido entre vocês. Tu arrancas-lhe dinheiro, enquanto ele tenta refazer a vida.
Arrancas-lhe dinheiro.
Empurrei para trás da orelha uma madeixa que me caía sobre o rosto e virei-me para o fogão. Liguei a chaleira. Não queria chá; precisava era de ocupar as mãos, de lhe dar as costas por uns segundos, de impedir que ela me visse a expressão. A água começou a murmurar, depois a ferver. Deitei-a numa caneca, mergulhei uma saqueta de hortelã e fiquei à espera que ganhasse cor. O vapor subiu, esverdeado e quente, misturando-se com o perfume intenso de Beatriz. Quando bebi, o chá soube-me amargo. Esquecera-me do açúcar. Mesmo assim, acabei-o de pé, junto à janela, com o olhar dela cravado nas minhas costas.
— Eu não arranco dinheiro a ninguém — disse, sem me virar. — Recebo aquilo que o tribunal determinou. Nem mais, nem menos.
— Tribunal, tribunal… — Beatriz soltou um riso seco. — Com vocês é tudo em tribunal. Pessoas normais conversam.
Voltei para a mesa e sentei-me em frente dela. A caneca ficou entre nós, ainda quente, soltando um fio de vapor.
— Eu tentei conversar — respondi. — Duas vezes só este ano. Da primeira, enviei ao Carlos uma lista detalhada: quanto estava em atraso e a que meses correspondia. Ele leu e não respondeu. Da segunda, propus um plano: cem euros por mês para abater a dívida, além da pensão corrente. Ele aceitou. No mês seguinte, não pagou um cêntimo.
Beatriz ficou calada. Depois puxou o fecho da mala com um gesto brusco, nervoso.
— Muito bem — disse. — Se a bem não resulta, ligo-lhe agora. À tua frente. Ele próprio te explica.
Tirou o telemóvel, procurou o contacto. Eu observei-a em silêncio. Lancei apenas um olhar rápido para a prateleira: o meu telemóvel continuava direito, com a pequena luz vermelha da gravação a piscar quase impercetível.
Beatriz carregou no botão de chamada e ativou o altifalante.
O primeiro toque pareceu comprido demais. O segundo também. Ao terceiro, Carlos atendeu.
— Bea, o que foi?
A voz dele encheu a cozinha: áspera, impaciente, contrariada. Eu não a ouvia havia mais de meio ano. A última vez fora quando lhe liguei para lembrar o aniversário do João. Ele dissera “está bem” e nunca mais telefonara.
— Estou em casa da tua ex — anunciou Beatriz, alto, como se falasse para uma plateia. — Ela recusa-se a assinar. Fala tu com ela.
Seguiu-se um silêncio curto. Do outro lado, ouvi um televisor a murmurar qualquer coisa.
— Beatriz, eu já te disse para tratares disso — respondeu ele. — Estou farto dessas discussões de mulheres.
Discussões de mulheres.
O filho dele, a pensão dele, a dívida dele — e, para Carlos, tudo aquilo não passava de uma discussão de mulheres. Permaneci junto à janela, com a caneca entre as duas mãos, sem dizer nada. A cerâmica já tinha arrefecido, mas eu não a largava. Precisava de segurar alguma coisa.
— Carlos, ela não está a perceber — insistiu Beatriz, elevando a voz. — Explica-lhe como deve ser. Diz-lhe que vocês combinaram isto.
— Ouve, ela que assine — soltou ele, irritado. — Estou cansado desta história. Quer dinheiro? Que vá trabalhar. Eu já não aguento.
Não disse uma única palavra sobre o João.
