Tudo dependia de como estava registado e das circunstâncias concretas, explicou-me Teresa. Em caso de divórcio, seria dividido em partes iguais, salvo se o tribunal entendesse proteger de outra forma os interesses da criança. Mas, se João tentasse vender ou doar o apartamento, precisava do meu consentimento reconhecido. Sem isso, a transação podia ser impugnada. Ainda assim, aconselhou-me a não ficar apenas pela teoria.
— Apresente um pedido na Conservatória do Registo Predial para impedir qualquer ato de registo sem a sua presença ou autorização expressa. É gratuito. Não é nenhuma manobra de guerra, Maria. É só uma declaração administrativa.
Depois passou ao carro. Estava em nome de João, mas fora comprado durante o casamento. Portanto, também entrava no património comum. Só que, com automóveis, tudo era mais fácil de fazer desaparecer: a venda não exigia a assinatura do outro cônjuge, embora pudesse ser contestada mais tarde. O importante era registar já tudo: marca, modelo, ano, quilometragem e valor aproximado.
A casa de férias, por sua vez, pertencia a Helena. Não entrava nas contas. Não era assunto meu.
Quanto à pensão de alimentos, se o divórcio avançasse, o valor para uma filha costumava rondar um quarto do rendimento oficial, a menos que houvesse acordo ou decisão judicial diferente. O salário declarado de João era de mil e duzentos euros. Mas as transferências para Inês não tinham saído da conta onde ele recebia o ordenado. Vinham de outra conta. Isso significava que havia poupanças, ou dinheiro paralelo, de que eu nunca tivera conhecimento.
Anotei tudo no telemóvel, uma frase atrás da outra, como se estivesse a escrever instruções para sobreviver.
Ao quinto dia, fui à conservatória e entreguei o pedido. Nunca imaginei que um dia estaria numa fila banal, com o cartão de cidadão apertado na mão, a dividir mentalmente a minha existência em antes e depois. Havia pessoas à minha frente a tratar de heranças, certidões, moradas. Uma funcionária chamou-me, recebeu os papéis e informou-me de que a restrição ficaria registada no prazo de cinco dias úteis. Assinei onde ela indicou. Saí para a rua com a sensação absurda de que o mundo continuava igual, embora o meu já tivesse começado a ruir.
No sexto dia, falei com João.
Beatriz estava no aniversário de uma amiga. João chegou do trabalho, mudou de roupa e sentou-se à mesa como em qualquer outro fim de tarde. Pus-lhe à frente um prato de jardineira e sentei-me do outro lado.
— João, quem é Inês Silva?
Ele não reagiu logo. Primeiro terminou de mastigar. Depois pousou o garfo, com cuidado excessivo.
— Como é que sabes?
Não disse “quem?”. Não perguntou “que Inês?”. A primeira preocupação dele foi saber como eu tinha descoberto.
— Há uma coisa que me interessa mais — respondi. — Entregaste-lhe a minha declaração de rendimentos. Ela tentou pedir um crédito com os meus dados. Sabes que isso é burla, não sabes?
A cor fugiu-lhe do rosto. Não foi aquele empalidecer teatral dos filmes. Foi o de uma pessoa que percebe, de repente, que a conversa já não pertence ao campo dos sentimentos.
— Maria, não é o que estás a pensar. Ela não queria…
— O que ela queria é irrelevante. Eu quero saber o que fizeste tu. Pegaste nos meus documentos. Passaste-os a uma pessoa de fora. Essa pessoa apresentou um pedido de crédito em meu nome. E todos os meses lhe transferes dinheiro. Praticamente o mesmo que entregas para as despesas da nossa casa. Isto não é só uma traição, João. Aliás, traição é a parte menor. Isto é bastante pior.
Ele ficou calado. Só depois murmurou:
— O crédito foi recusado. No fim, não aconteceu nada.
— Aconteceu, sim. Os meus dados foram parar às mãos de alguém que eu não conheço. A consulta ficou registada no meu histórico bancário. E, se o crédito tivesse sido aprovado, a dívida ficava em meu nome. Consegues perceber isso?
Percebia. Via-se-lhe nos olhos.
— Eu não pensei que chegasse a esse ponto — disse, quase sem voz. — Ela disse que precisava só por uns dias. Que era para desenrascar.
Levantei-me da cadeira.
— João, não vou gritar. Não vou partir pratos. Vou apenas dizer-te o que acontece a seguir. Amanhã vens comigo falar com a advogada. Sentamo-nos os três e pomos tudo em cima da mesa: apartamento, carro, contas, dinheiro, Beatriz. Se não fores, apresento queixa na polícia por tentativa de burla. Tenho o extrato do banco, o número de telefone e as capturas das transferências. Isto não é uma cena nem uma chantagem. É só o que eu vou fazer.
Ele não discutiu.
No dia seguinte, fomos juntos ao escritório de Teresa. João sentou-se na ponta da cadeira, inclinado para a frente, com os olhos presos ao chão, enquanto ela organizava os documentos à sua frente.
Teresa não fez sermões. Não levantou a voz. Limitou-se a perguntar.
— João, estas transferências para este número saíam de que conta?
— De uma conta poupança.
— Essa conta está em seu nome?
— Está.
— Maria sabia que ela existia?
— Não.
— Quanto dinheiro há lá agora?
Ele hesitou.
— Cerca de mil e duzentos euros.
— E quanto havia antes?
Desta vez, o silêncio foi mais comprido.
— À volta de quatro mil.
Quatro mil euros. Uma conta poupança de que eu nunca ouvira falar. Dinheiro que ele juntara — ou que nós tínhamos juntado sem eu saber — e que, aos poucos, escorrera para a Rua do Rio.
Teresa voltou-se para mim.
— Maria, quer avançar já com o divórcio?
Olhei para João. Treze anos. Beatriz. A nossa casa. Tudo aquilo que eu acreditara termos construído lado a lado.
— Antes quero ver tudo com clareza. Todas as contas. Todas as transferências. Todas as dívidas e obrigações. Depois decido.
Teresa assentiu, pegando numa folha em branco.
— Então começamos por um acordo notarial.
