A Teresa esclareceu que uma pesquisa no histórico não provava, por si só, aquilo que eu temia. Podia ter sido uma avaliação automática, uma simulação preliminar, uma verificação ligada a algum pedido, até um engano do sistema. Ainda assim, aconselhou-me a telefonar para o banco e pedir explicações.
Foi o que fiz.
A funcionária que me atendeu demorou bastante tempo a encontrar o registo. Ouvi teclas, pausas, pedidos educados para aguardar mais um momento. Por fim, com aquela voz neutra de quem está habituado a não se comprometer, informou-me que, quatro meses antes, tinha sido apresentado um pedido de crédito pessoal em meu nome. O pedido fora recusado porque faltava documentação suficiente para comprovar rendimentos. Mas existia.
Eu nunca tinha pedido crédito nenhum.
Senti os dedos gelarem. Não foi pelo valor em si. A quantia nem era absurda: cerca de dois mil euros. O que me assustou foi outra coisa. Alguém tinha usado os meus dados. O meu cartão de cidadão ficava guardado em casa, na gaveta da cómoda do quarto. Só duas pessoas mexiam ali: eu e o João.
Nessa noite, quando cheguei, a Beatriz estava no quarto a fazer os trabalhos da escola. O João encontrava-se na cozinha, sentado à mesa, a comer arroz aquecido com uma costeleta. A televisão murmurava notícias ao fundo.
— Então, o corte ficou bem? — perguntou ele, sem sequer virar a cabeça.
— Ficou. Também pintei o cabelo.
Ele limitou-se a acenar. Pus a chaleira ao lume e fiquei a olhar para a nuca dele. Treze anos de casamento. Eu conhecia aquela cabeça inclinada, aquelas orelhas, aquela forma de comer sem desviar os olhos do ecrã quase melhor do que conhecia as minhas próprias mãos.
Não lhe perguntei nada. Ainda não.
No dia seguinte, fui pessoalmente ao banco. Levei o cartão de cidadão e pedi que consultassem o processo daquele pedido, porque os dados eram meus e eu suspeitava que alguém pudesse ter tentado contrair crédito sem o meu conhecimento. A funcionária hesitou, foi chamar uma colega, voltou, pediu-me mais uma identificação. Só depois de eu insistir e mencionar a possível utilização indevida dos meus dados pessoais é que me mostrou a informação disponível.
O pedido tinha sido feito pela internet. Como contacto, constava um número de telemóvel que não era o meu. Não o reconheci. Mas a morada, os dados do documento, o local de trabalho — tudo batia certo. Sem erros. Sem aproximações. Exato demais.
Esse tipo de informação não anda espalhado por aí. O meu emprego, a função, o tempo de serviço… isso só saberia quem tivesse visto a minha declaração de rendimentos. Eu pedira uma há oito meses, quando pensámos em renegociar o crédito do carro do João. O papel ficara em casa, na mesma gaveta da cómoda.
Nessa noite, depois de a Beatriz adormecer, abri a gaveta.
O cartão de cidadão estava lá.
A declaração, não.
Não entrei em pânico. Foi pior do que pânico. Foi uma sensação silenciosa, como se a casa, a rotina, a vida inteira que eu julgava firme se tivesse deslocado um centímetro para o lado. Pouco. Mas o suficiente para eu perceber que já nada encaixava como antes.
Fotografei o interior da gaveta. Nem sei bem porquê. A Teresa tinha-me dito para registar tudo o que me parecesse estranho. Obedeci.
Ao terceiro dia, resolvi verificar o número de telefone indicado no pedido do banco. Não liguei. Apenas o escrevi no motor de busca. Nada. Experimentei depois numa aplicação de mensagens. Apareceu um avatar: um círculo cor-de-rosa, sem rosto. O nome era curto: Inês.
Inês Silva.
A mulher que ia à Ana de três em três semanas. A mulher que morava na Rua do Rio. A mulher a quem o marido oferecia vouchers de spa.
E a mulher que tinha tentado pedir um crédito em meu nome. Ou, no mínimo, a dona do número usado no pedido. Para mim, já era mais do que suficiente.
Não telefonei ao João. Liguei à Teresa.
— Teresa, agora tenho factos. O que é que eu faço?
Ela ouviu-me até ao fim, sem me interromper. Depois respondeu com calma:
— Maria, o crédito foi recusado. O dinheiro não chegou a ser entregue. Do ponto de vista formal, não há prejuízo financeiro consumado. Mas tentar obter um crédito usando dados de outra pessoa é fraude. Pode apresentar queixa na polícia. A questão é saber se quer fazê-lo já ou se prefere falar primeiro com o seu marido.
Pensei durante vinte e quatro horas.
A Beatriz foi para a escola. O João foi trabalhar. Eu fiz o jantar, confirmei os trabalhos de casa, lavei a roupa da miúda, telefonei à minha mãe. Tudo igual. Uma vida normal por fora, como se nada tivesse acontecido. Por dentro, porém, alguma coisa já se tinha partido.
Eu nem pensava tanto na Inês. Pensava na declaração. No facto de o João a ter tirado da nossa gaveta e entregado a outra mulher. Uma mulher que, com aqueles dados, tentara pedir dinheiro em meu nome.
Aquilo já não era apenas uma traição. Era mais fundo. Ele tinha aberto a porta da minha documentação, da minha segurança, da minha vida, a uma estranha.
No quarto dia, cheguei a casa mais cedo do que o habitual. A Beatriz ainda estava na escola. O João continuava no trabalho. Eu tinha uma hora.
Não vasculhei as coisas dele. Sentei-me apenas diante do portátil comum, o que ficava quase sempre na mesa da cozinha. Por descuido, por arrogância ou por simples hábito, o João deixara abertas a caixa de correio eletrónico e as notificações bancárias. Escrevi “Inês” na pesquisa.
Não encontrei mensagens. Mas havia avisos do banco. No último mês, tinham sido feitas três transferências para o mesmo número que aparecia no pedido de crédito. Cento e cinquenta euros de cada vez. Quatrocentos e cinquenta euros ao todo.
Era exatamente o valor que ele me entregava todos os meses para alimentação e despesas da casa.
Fiz capturas de ecrã. Reenviei tudo para o meu email. Fechei o portátil.
O mais estranho foi perceber que eu não tremia. Bebi um copo de água devagar e telefonei à Teresa pela terceira vez.
— Teresa, estou pronta para falar com o meu marido. Mas antes preciso de saber uma coisa: o que posso perder se ele decidir agir primeiro?
Desta vez, ela respondeu de forma ainda mais objetiva, quase como se estivesse a ler uma lista.
Começou pelo essencial: o apartamento era, em princípio, um bem comum do casal.
