— Estás à espera que seja eu a dar de comer à tua família? — perguntou Ana, atónita, enquanto olhava para as prateleiras vazias do armário da cozinha. — João, tu estás a ver? Aqui não há absolutamente nada!
João mantinha-se encostado ao vão da porta, de braços cruzados, como se a situação não tivesse nada de especial. Atrás dele, parados sem saber muito bem onde se pôr, estavam o irmão mais velho, Manuel, e a irmã, Maria.
— Ana, não faças uma tragédia por tudo e por nada. Vais ao supermercado, compras qualquer coisa e pronto. Temos visitas.
— Visitas? — Ana fechou devagar a porta do armário, contendo a irritação. — Os teus parentes aparecem sem avisar, tu rebentaste o ordenado inteiro nos teus brinquedos, e agora queres que eu tire comida do ar?
Manuel empurrou João de lado e entrou na cozinha com a familiaridade de quem se achava em casa. O rosto redondo brilhava de suor, apesar de lá fora estar frio.

— Oh, Ana, tem lá calma. Somos família, não somos estranhos. Custa assim tanto fazeres qualquer coisinha? — deixou-se cair num banco baixo, que gemeu debaixo do peso.
Maria entrou logo a seguir, passando os olhos pela cozinha modesta com uma expressão de desdém mal disfarçado.
— O João disse-nos que eras uma dona de casa exemplar — comentou, arrastando um dedo pelo tampo da bancada. — Embora, pelo estado destes armários…
— Chega! — Ana levantou a mão, cortando-lhe a frase. — Primeiro: o João sabia perfeitamente que não tínhamos dinheiro. Segundo: sabia também que não havia comida em casa. Terceiro: não me disse uma palavra sobre a vossa vinda.
— E então? — João encolheu os ombros. — Pede emprestado aos vizinhos.
Ao fim de três anos de casamento, Ana começava finalmente a perceber a quem tinha unido a vida.
— Aos vizinhos? João, lembraste de que ainda devemos vinte euros ao casal Silva? E mais dez à Catarina?
— Tu exageras sempre — resmungou João, fazendo um gesto impaciente com a mão. — Manuel, Maria, esperem na sala. Eu trato já disto.
Os dois saíram contrariados. Assim que ficaram sozinhos, João aproximou-se da mulher, baixando a voz, mas sem suavizar o tom.
— Ana, não me envergonhes. Eles vieram de outra cidade. O que é que vão pensar de mim?
— E tu pensaste em mim quando gastaste o último dinheiro numa consola nova? — Ana recuou um passo. — João, tenho dois euros na carteira. Dois. É tudo o que resta até receberes outra vez.
— Compra massa e umas salsichas. Desenrasca-te.
— Não.
João piscou os olhos, como se não tivesse ouvido bem.
— Como assim, “não”?
— Assim mesmo: não vou humilhar-me à frente da tua família, fingindo que está tudo maravilhoso. Se queres que eles comam, então alimenta-os tu.
Nesse instante, Manuel voltou a aparecer à entrada da cozinha.
— Mano, estamos cheios de fome. A viagem foi longa.
— Manuel, já vai… espera só um minuto — João passou a mão pelo cabelo, nervoso.
— A Ana não quer cozinhar? — Manuel abriu um sorriso torto. — Bela mulher arranjaste. A minha Inês nunca faria uma coisa dessas.
— A tua Inês — respondeu Ana, gelada — recebe dinheiro teu para manter a casa. Eu, do João, só recebo promessas.
Manuel ficou vermelho, virou costas e saiu a passos pesados, batendo a porta com força.
— Estás satisfeita agora? — sibilou João. — Fizeste-me passar vergonha diante do meu irmão!
— Eu? — Ana soltou uma gargalhada curta, sem alegria. — João, tu envergonhas-te a ti próprio todos os dias. Quando chegas a casa com mais uma porcaria inútil em vez de comida. Quando prometes e nunca cumpres. Quando mentes para mim… e para ti também.
— CALA-TE! — berrou João, com tanta violência que a voz atravessou o apartamento inteiro.
