Maria apareceu de rompante vinda da sala de estar, alarmada pelo grito.
— Mas que raio se passa aqui? — perguntou, lançando a Ana um olhar de censura. — João, a tua mulher já não te obedece em nada?
Ana virou-se para ela devagar, com uma calma perigosa.
— Diz mais uma palavra — avisou — e eu conto ao teu marido, o Pedro, tudo sobre os teus “encontros” com o Rui, do prédio ao lado.
Maria perdeu a cor. Deu um passo atrás, como se tivesse levado uma bofetada.
— Tu…
— Eu sei muita coisa — cortou Ana, pegando na mala. — E agora, com licença, vou-me embora.
João pôs-se diante dela, barrando-lhe a passagem.
— Vais para onde?
— Para casa da minha mãe. Lá, pelo menos, ninguém espera que eu alimente uma alcateia de parentes com ar e promessas.
— Se saíres por essa porta, não voltes! — rugiu ele.
Ana parou. Durante um segundo, ficou imóvel. Depois voltou-se lentamente, olhando-o de frente.
— Sabes uma coisa, João? Essa foi a melhor proposta que me fizeste no último ano.
A mãe recebeu-a sem fazer perguntas. Isabel limitou-se a envolver a filha nos braços e, depois, levou-a para a pequena cozinha, onde a sentou à mesa como se ela ainda fosse uma menina.
— Conta-me — disse apenas, enquanto enchia duas chávenas de chá.
Ana contou tudo. Falou dos armários vazios, da lata dos familiares que tinham aparecido sem aviso, das exigências de João, da forma como ele a tratara como se a culpa de tudo fosse dela.
— E tu vieste embora? — Isabel assentiu, aprovando. — Fizeste muito bem. Até quando ias continuar a aguentar aquele inútil?
— Mãe… eu amava-o.
— Amavas — corrigiu Isabel, com suavidade, mas sem hesitar. — No passado. Amor sem respeito não se aguenta de pé por muito tempo.
Nesse instante, o telemóvel de Ana começou a tocar. No ecrã piscava o nome de João. Ela olhou para o aparelho durante uns segundos e rejeitou a chamada.
— Não atendas — aconselhou a mãe. — Que ele resolva sozinho a confusão da família dele.
O telefone insistiu várias vezes. Depois vieram mensagens, uma atrás da outra. Ana não abriu nenhuma.
— Sabes — continuou Isabel, servindo mais chá —, eu nunca te disse isto, mas o João nunca me convenceu. Desde o princípio. Tinha a mania que o mundo girava à volta dele e não deixava espaço para mais ninguém respirar.
— Porque é que nunca disseste nada?
— E tu ter-me-ias ouvido? Quem está apaixonado raramente dá ouvidos ao bom senso.
Ana esboçou um sorriso triste. A mãe tinha razão, e isso doía quase tanto como tudo o resto.
Entretanto, no apartamento de Ana e João, instalara-se um verdadeiro teatro. Manuel andava de um lado para o outro, indignado, gesticulando como se tivesse sido vítima de uma grande injustiça.
— Tu viste aquilo? Viste como a tua mulher se comporta? Nem sequer deu de comer aos convidados!
— Manuel, acalma-te — pediu João, numa voz tensa, enquanto ia da cozinha para a sala e da sala para a cozinha, à procura desesperada de qualquer coisa que se pudesse pôr na mesa.
— Eu sempre disse que ela não servia para ti — meteu Maria, sentada com ar ofendido. — Lembras-te? Avisei-te logo: aquela Ana não era mulher para ti.
— CHEGA! — rosnou João. — Se são assim tão entendidos, vão para um hotel.
— Para um hotel? — Manuel arregalou os olhos. — Estás a mandar o teu próprio irmão para um hotel? Eu vim ter contigo de propósito, pensei que íamos passar uma noite em família…
— Em família — repetiu João, com um sorriso amargo, abrindo o frigorífico vazio. — Aqui dentro só há ketchup e um iogurte fora de prazo.
— A culpa é toda da tua Ana — resmungou Maria, deixando-se cair no sofá. — Uma esposa decente tem sempre qualquer coisa guardada.
— Uma esposa decente também costuma ter um marido decente — escapou a João, antes que conseguisse travar as palavras.
Os dois irmãos ficaram parados, surpreendidos, e trocaram um olhar incrédulo.
— Estás a defendê-la? — perguntou Manuel, sem acreditar no que ouvia. — Ela abandonou-te, fugiu para casa da mãezinha, e tu ainda a defendes?
João deixou-se cair numa cadeira. Só naquele momento a realidade pareceu bater-lhe de frente. Ana tinha ido embora. Não ameaçara, não fizera cena, não suplicara. Pegara na mala e saíra. E, no fundo, ele sabia que ela tinha razão.
Levantou a cabeça devagar.
— Querem saber uma coisa? Vão para casa. Eu preciso de pensar.
— Para casa?! — Maria ficou boquiaberta.
