— A noiva do meu filho é um erro — declarou Manuela Silva ao microfone, apontando diretamente para mim.
Os cem convidados ficaram mudos.
Depois ouviu-se uma gargalhada curta, seca, desconfortável. Vinha da senhora Santos, na mesa ao lado. Levou a mão à boca, mas os olhos continuavam a rir.
— Ela tem vinte e seis anos — prosseguiu Manuela. — O meu filho tem trinta e três. Precisa de uma mulher mais madura. Conhecem-se há oito meses. Oito! Isso não chega para construir um casamento.
O senhor Ferreira tirou o telemóvel do bolso e começou a gravar. A mulher dele inclinou-se para a vizinha e murmurou:

— Isto não está a acontecer… ela não pode estar a falar a sério.
Mas estava.
— Por isso, eu, enquanto mãe do noivo, digo sem rodeios: não aprovo esta união. — Manuela ergueu a taça de champanhe. — Mas que se há de fazer? Juventude. Imprudência. O amor é cego, não é? Brindo aos noivos. Que tenham saúde. E que isto dure, pelo menos, um ano.
Alguém se riu alto. Depois outra pessoa. Em poucos segundos, uma fila inteira das mesas do fundo acompanhava o riso.
Uma rapariga sentada perto de mim sussurrou à amiga:
— Coitada da noiva. Que humilhação.
A outra respondeu, quase sem mexer os lábios:
— Estás a filmar? Põe no Instagram.
Eu permanecia sentada à mesa principal. Vestia o vestido de noiva que levara três meses a escolher. Tinha no cabelo a coroa de flores que a minha mãe me entrançara nessa mesma manhã. Ao meu lado estava Tiago, o meu marido há apenas alguns minutos, com os olhos cravados no prato. Mantinha as mãos apertadas no colo. Parecia nem respirar.
Tinham passado vinte minutos desde a cerimónia. Era o meu casamento. Diante de cem pessoas. No restaurante que pertencia ao meu pai.
E a minha sogra acabara de anunciar a todos que eu era um erro.
Manuela pousou o microfone na mesa. Sorriu com aquele sorriso de quem finalmente dissera em voz alta o que guardava há muito e sabia que ninguém teria coragem de a travar. Depois regressou ao seu lugar. Catarina, a irmã de Tiago, olhava para ela de boca entreaberta, estarrecida. Ainda assim, não pronunciou uma palavra.
O meu pai estava sentado numa mesa próxima. Vi-lhe os músculos do rosto contraírem-se. Vi como apertava o copo com tanta força que cheguei a pensar que o vidro se partiria na mão dele. Depois olhou para mim: de vestido branco, com o rímel esborratado, os dedos entrelaçados com desespero.
Também olhou para Tiago. Para aquele homem imóvel como uma estátua. Que não me defendera. Que não dissera uma única sílaba. Que nem sequer levantara os olhos para a mãe. Nem para mim.
E olhou para Manuela. Ela voltara à mesa com ar de vencedora, bebericava champanhe e sorria para os convidados que a observavam.
Então o meu pai levantou-se. Pegou no próprio copo, esvaziou-o de um trago e pousou-o de novo com tanta firmeza que o som ecoou pelo salão.
Todo o restaurante se virou para ele.
Caminhou até ao microfone. Segurou-o na mão. Primeiro fixou Manuela Silva. Depois, a mim.
— Peço desculpa — disse, num tom calmo, mas duro como aço. — Posso falar um instante?
Naquela manhã, eu tinha acordado no meu antigo quarto, em casa dos meus pais, onde vivera durante os meus vinte e seis anos.
Era o dia do meu casamento.
Eu devia sentir-me feliz. Devia estar nervosa daquela maneira boa, vibrante, cheia de expectativa. Devia estar ansiosa por isso.
