Mas, em vez disso, estava com medo.
Porque, na véspera, Manuela Silva tinha aparecido no nosso apartamento — o apartamento que eu dividia com Tiago havia oito meses — e dissera, sem rodeios:
— Não acredito que amanhã vá haver casamento.
Tiago estava a preparar café. Virou-se devagar.
— Mãe, por favor. Hoje não.
— Meu filho, estou apenas a dizer-te a verdade. Essa rapariga não é para ti.
— Mãe, eu amo-a. Vou casar-me com ela.
— Ainda não — corrigiu ela. — Por enquanto, isso existe só no papel. Amanhã é a cerimónia. E eu estou a dizer-te: pensa melhor.
Eu fiquei parada na cozinha, incapaz até de respirar.
Tiago olhou para mim e depois voltou-se para a mãe.
— Não há nada para discutir. Acabou a conversa.
— Está bem, está bem — suspirou Manuela. — Mas depois não digas que não te avisei.
E foi-se embora.
Nessa noite, não consegui pregar olho. Encostei a cabeça ao ombro de Tiago e murmurei:
— E se ela tiver razão?
— Não tem — respondeu ele. — Inês, a minha mãe é… tu sabes como ela é. Vai habituar-se.
— Há oito meses que tenta habituar-se a mim — sussurrei. — E continua a dizer que eu não sou suficientemente boa.
— Porque está habituada a ter-me só para ela. Sempre fui o menino da mamã. Mas agora sou teu marido. E amanhã toda a gente vai ver isso.
Ele adormeceu pouco depois.
Eu não.
De manhã, a minha mãe ajudou-me a vestir o vestido. Branco, simples, perfeito. Ao olhar para o espelho, quase não me reconheci. Parecia saída de um conto.
— Estás linda, Inês — disse ela, com os olhos cheios de lágrimas.
Engoli em seco.
— Mãe, tenho medo.
— Medo de quê, querida?
— Que a Manuela estrague o casamento.
A minha mãe abanou a cabeça.
— Não vai conseguir. O teu pai não deixaria. Este é o nosso dia. O teu dia. E ele sabe bem o valor disso.
O meu pai era dono do restaurante A Gaivota Dourada, o melhor da nossa cidade. Fazia casamentos, aniversários, jantares de empresas. Toda a gente o conhecia. Toda a gente o respeitava.
E, naquele dia, era ele quem recebia o casamento da própria filha.
Quando chegámos ao restaurante, havia cem convidados à nossa espera. Flores por todo o lado. Música suave. Mesas postas como se tivessem saído de uma revista.
O meu pai deu-me o braço e levou-me até ao altar improvisado. Tiago esperava-me lá, sorridente.
A cerimónia aconteceu. Fizemos as promessas. Jurámos fidelidade. Beijámo-nos. As palmas encheram a sala.
Depois, seguimos para as mesas.
Depois, vieram os brindes.
E depois, Manuela Silva levantou-se, pegou no microfone e disse aquelas palavras.
Agora, o meu pai estava junto do microfone. Olhava diretamente para Manuela Silva, que permanecia sentada à mesa com um sorriso largo, satisfeito demais.
— Boa noite — disse ele, com uma calma impecável. — Chamo-me Jorge Pereira. Sou o pai da noiva. E sou também o proprietário deste restaurante.
Manuela ficou imóvel. O sorriso desapareceu-lhe do rosto.
— Senhora Silva — continuou o meu pai —, acabou de humilhar a minha filha. No dia do casamento dela. Diante de cem pessoas. Dentro do meu restaurante.
— Senhor Pereira, eu só disse a verdade…
— Cale-se — interrompeu ele.
Não gritou. Não precisou de levantar a voz. Falou apenas com uma firmeza que gelou a sala inteira.
Manuela fechou a boca.
— Este espaço é meu — prosseguiu o meu pai. — Sou eu quem decide quem pode permanecer aqui. E a senhora, neste momento, acabou de perder esse direito.
— O que é que isso quer dizer? — perguntou Manuela, levantando-se.
— Quer dizer que lhe peço que abandone esta sala. Agora.
Os cem convidados ficaram em silêncio. Ninguém se mexeu. Parecia que até o ar tinha parado.
Manuela soltou uma gargalhada nervosa.
— Está a falar a sério? O meu filho acabou de se casar aqui!
