No divórcio, o marido deixou-lhe, com um sorriso de escárnio, um “terreno de férias” que dizia não valer nada. O que ele nem imaginava era o segredo escondido no velho poço daquela propriedade…
— Assina, Catarina, e acabamos de vez com esta farsa.
Ricardo empurrou na minha direção a pasta com os documentos, como quem atira migalhas a alguém. Os dedos impecavelmente tratados batiam de leve no tampo de mogno, enquanto nos lábios lhe dançava aquele sorriso torto que, ao longo dos anos, eu aprendera a detestar.
Era o sorriso de um predador a ver a presa encurralada.
— O que é isto? — perguntei, sem tocar nos papéis. Por dentro, senti tudo gelar.

— A minha prenda de despedida. Seiscentos metros quadrados num sítio perdido chamado Nazaré. Um pedaço de terra engolido por ervas, um barracão torto e um poço quase a ruir. Exatamente aquilo que mereces.
Recostou-se na poltrona de couro trabalhado, saboreando o instante. A minha humilhação tinha sido preparada por ele com requintes de crueldade.
— E isto… — apontou para os documentos com um gesto preguiçoso — podes considerar uma compensação pelos teus melhores anos. Sempre podes plantar cenouras.
Se é que alguma coisa nasce naquele barro.
O desprezo na voz dele era tão evidente que quase se podia tocar. Esperava lágrimas, gritos, uma cena.
Queria ver-me discutir, implorar por esmolas, agarrar-me à vida confortável que ele acabava de me arrancar com uma simples assinatura.
Mas eu limitei-me a pegar na caneta. Isso, ele não previu.
— As crianças ficam comigo — declarei, com uma calma que nem eu sabia possuir. A minha voz não tremeu. Aquela era a única condição. A linha que eu jamais permitiria que ele atravessasse.
Durante um segundo, o rosto dele contraiu-se. Os miúdos eram o único ponto capaz de atravessar a armadura de Ricardo, mas não por amor.
Eram o seu prolongamento, o retrato bonito que mostrava à sociedade, parte do estatuto que tanto prezava. Só que eles o desprezavam. E ele sabia disso.
— Como quiseres. Até lhes faz bem irem para uma aldeia. Ar puro, casa de banho lá fora… excelente para formar caráter.
Assinei em silêncio. Catarina Silva. Em breve, apenas Silva.
Fechei a pasta, levantei-me e não lhe ofereci mais nenhuma palavra. Nem sequer um último olhar.
Quando a porta do escritório se fechou atrás de mim, pareceu cortar quinze anos da minha vida de uma só vez.
Nessa noite, enquanto separava os papéis, os miúdos apareceram à entrada do quarto. Os gémeos, Tiago e Inês, os meus pequenos defensores de treze anos.
— Mãe, isso veio dele? — perguntou Inês, indicando com o queixo os documentos carimbados.
— Veio. É a nossa nova casa.
Abri a planta do terreno sobre a mesa. Um retângulo irregular, identificado como “terreno agrícola”. No centro, um círculo azul trazia a indicação: “poço”.
Tiago franziu o sobrolho.
— Vamos mesmo mudar-nos para lá? Para longe dele?
— Vamos — respondi com firmeza. — Vamos recomeçar do zero.
No portátil, procurei a zona no mapa por satélite. Uma mancha verde, pequena e isolada, entre campos e arvoredos. Nazaré.
Ao aproximar a imagem, distinguiu-se uma cavidade escura no meio da vegetação desordenada. O poço antigo.
Ricardo acreditava que me estava a empurrar para o nada, para a pobreza e para o esquecimento. Deixara-me aquele “terreno inútil” com um sorriso venenoso.
Não fazia ideia do que aquela terra abandonada podia esconder. E, por uma razão que eu não conseguia explicar, senti que era precisamente ali, naquele canto esquecido, que se encontrava a carta que poderia mudar o meu destino.
Não no apartamento com vista para o centro de Lisboa, mas no fundo de um poço velho, esquecido por todos.
A realidade, contudo, era muito mais dura do que qualquer imagem de satélite. A Nazaré recebeu-nos com cercas tortas, caminhos gastos e ruas quase desertas.
O nosso lote ficava no extremo da zona, junto à linha das árvores. As ervas tinham crescido até à altura de uma pessoa e escondiam praticamente tudo; só se via, ao longe, o telhado enferrujado do barracão.
— Uau — murmurou Tiago, olhando em redor para aquele império de mato. — Aqui não chega uma enxada. É preciso um machete.
Inês engoliu em seco, mas logo ergueu o queixo, decidida:
— Não faz mal, mãe. Nós damos conta disto. O importante é estarmos juntos. E ele não estar aqui.
Para os primeiros tempos, alugámos uma casinha numa rua próxima. A proprietária, uma senhora idosa e magra, analisou-nos com olhos estreitos e desconfiados.
— Vêm para o sexto lote, o que era do Pereira? — perguntou. — Aquilo não é sítio bom. Ele cavava por todo o lado. Era geólogo, homem esquisito. Foi-se embora há dez anos e depois disseram que morreu. Desde então, aquela terra ficou ao abandono.
À noite, o telemóvel tocou. Era Ricardo.
