— Então, minha rainha das propriedades rurais? — a voz de Ricardo escorreu pelo auscultador, doce e venenosa. — Como estão os teus domínios? As crianças já fizeram amizade com os bichos da zona? Espero que não haja víboras por aí.
Endireitei as costas, embora ele não me pudesse ver.
— Estamos bem, Ricardo. O ar é maravilhoso.
Obriguei-me a falar num tom sereno, sem lhe oferecer uma brecha para novas provocações. Mas ele conhecia demasiado bem a arte de apertar onde doía.
— Preocupo-me, Catarina. Crianças precisam de condições decentes. Internet, escola, amigos da idade delas. Não dessa… comunidade atrasada. Estás a ser irresponsável.
Fechei os olhos por um segundo. Tinha acertado em cheio. Não em mim, mas na mãe que havia em mim. Nos meus medos mais fundos.
— Ainda podes corrigir tudo — continuou ele, baixando a voz até a transformar numa carícia falsa. — Basta uma chamada tua. Admites que te enganaste, que cometeste um disparate, e eu mando já um carro buscar-vos.
Era o golpe preferido dele: fazer-me parecer incapaz de decidir fosse o que fosse e, logo a seguir, vestir a pele do salvador.
— Não precisamos do teu carro. Nem da tua ajuda.
— Como queiras. Depois não te queixes quando a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens aparecer para ver em que condições manténs os meus filhos.
E desligou.
Fiquei com a mão a tremer ligeiramente. Saí para o alpendre. A noite estava fresca, limpa, com cheiro a ervas bravas e a mata húmida. Ainda assim, as palavras de Ricardo colavam-se a tudo como uma substância tóxica, estragando até aquele silêncio.
Na manhã seguinte começámos a limpar o terreno.
Foi um trabalho infernal. Silvas que nos rasgavam a roupa, urtigas escondidas, raízes grossas e torcidas como serpentes. Ao meio-dia, exaustos e cobertos de pó, conseguimos finalmente chegar ao barracão.
Entre tralhas antigas, tábuas podres e ferramentas enferrujadas, encontrei uma arca meio desfeita pela humidade. Dentro dela havia papéis amarelados. Um desenho do lote, muito mais minucioso do que qualquer planta oficial que eu tivesse recebido. E vários cadernos, todos preenchidos com uma letra apertada, meticulosa, quase obsessiva.
Eram os diários de Pereira. Do tal geólogo.
Mais tarde, quando limpámos a zona central do terreno, vimos aquilo que as silvas tinham escondido durante anos: o poço.
Não estava em ruínas, como Ricardo fizera questão de dizer. Pelo contrário. A estrutura era sólida, feita de madeira escurecida pelo tempo, com um aro pesado e uma tampa grossa que parecia não ser movida há décadas.
Eu e Tiago tivemos de nos esforçar para a levantar. Quando a tampa cedeu, abriu-se diante de nós uma boca negra, fria, sem fundo visível.
— Mãe… isto é muito fundo — murmurou Tiago, atirando uma pedrinha lá para dentro.
Ficámos à espera do som da queda.
Ele nunca chegou.
Foi nesse instante, debruçada sobre aquela escuridão húmida e interminável, que compreendi uma coisa: Ricardo enganara-se. Achara que me tinha empurrado para um buraco.
Na verdade, entregara-me uma chave. E eu estava disposta a fazê-la rodar, custasse o que custasse.
Nas noites seguintes, sentei-me à mesa da casinha alugada, sob a luz fraca de um candeeiro, e mergulhei nos cadernos de Pereira. As páginas cheiravam a pó antigo, mofo e terra molhada.
Por entre termos geológicos, esquemas de camadas subterrâneas e contas que eu mal compreendia, começou a revelar-se outra história. Não era apenas estudo. Era fixação.
Pereira não procurava água. Aquilo não era um poço comum. Era uma entrada disfarçada, uma espécie de galeria secreta aberta na terra.
Numa das folhas, encontrei uma frase sublinhada a vermelho e emoldurada por um retângulo tremido: “Profundidade 17. Caixa falsa. A carga principal encontra-se mais abaixo.”
Ao lado, numa nota escrita com ainda mais cuidado, lia-se: “A posse do terreno abrange também o direito aos bens ocultos sob ele. Consultei juristas separadamente; o parecer encontra-se anexo. Documento confirmado por notário. O que é meu, é meu. Para sempre.”
Na manhã seguinte, um carro desconhecido entrou pelo caminho de terra. Logo atrás, surgiu o jipe preto e reluzente de Ricardo.
Ele não tinha feito bluff.
Do primeiro carro saíram duas mulheres de fato escuro, expressão rígida e pastas na mão. Do segundo saiu ele: impecável, seguro de si, já saboreando a vitória antes mesmo de a partida começar.
— Catarina Silva? — perguntou uma das mulheres. — Somos da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. Recebemos uma participação relativa a possíveis condições inadequadas para menores…
Tiago e Inês, ambos com a roupa suja de terra, ficaram imóveis atrás de mim. Vi o medo nos olhos deles e senti qualquer coisa incendiar-se dentro do peito.
Ricardo abriu os braços, teatral, apontando para tudo à nossa volta.
— Vejam com os vossos próprios olhos. Um barracão que pode cair a qualquer momento. Um terreno cheio de mato. Condições sanitárias, imagino, algures no meio das árvores. É isto que uma mulher responsável oferece aos filhos de um homem bem-sucedido?
Ele estava a gostar. Não viera apenas humilhar-me. Viera tirar-me as crianças. Viera partir-me de vez.
Mas, naquele momento, algo em mim mudou. Todos os anos de medo, todas as humilhações engolidas, toda a necessidade doentia de parecer “boa”, “correta”, “apta” aos olhos dos outros, comprimiram-se num único ponto.
E rebentaram.
Bastava. Acabara.
Olhei para Inês, pálida e assustada. Depois para Tiago, com os punhos tão cerrados que os nós dos dedos estavam brancos.
Quinze anos tinham sido tempo demais.
