“As crianças ficam comigo” declarou ela com calma inabalável ao recusar o terreno de férias que o marido lhe deixou com sorriso de escárnio

Histórias
A humilhação foi vil, mas surpreendentemente libertadora.

Pela primeira vez em quinze anos, encarei Ricardo sem que a sombra do pavor me atravessasse o olhar.

— Minhas senhoras — disse eu, voltando-me para as duas mulheres da comissão de proteção, e a minha voz saiu firme, quase fria. — O que têm diante de vós não é um terreno abandonado. É um ativo imobiliário com potencial considerável. Estou a proceder à recuperação da propriedade que me foi atribuída por contrato.

Ricardo soltou um riso áspero, de desprezo.

— Propriedade? Isto é um monte de lixo!

Não lhe dei sequer a cortesia de responder diretamente.

— Este terreno contém uma estrutura geológica singular — prossegui. — O antigo proprietário, o geólogo Pereira, realizou aqui vários estudos. Aquilo a que o senhor chamou poço é, na verdade, uma galeria de reforço.

Aproximei-me da viga, ergui a mão e bati nela com os nós dos dedos.

— Carvalho tratado. Madeira para durar gerações.

As duas técnicas trocaram um olhar. A minha segurança desarmava-as; era evidente que não esperavam encontrar ali uma mulher que soubesse exatamente o que estava a fazer.

— Preciso apenas de uma coisa — continuei. — Dois homens, durante dez minutos, para demonstrar o valor real desta instalação.

Olhei para o terreno vizinho. Nuno estava junto à vedação, com uma ferramenta na mão, fingindo trabalhar, mas a acompanhar tudo com uma curiosidade descarada. Quando os nossos olhos se cruzaram, ele percebeu e assentiu de imediato. O segundo homem acabou por ser o motorista de Ricardo, a quem o patrão fez um gesto irritado, como se o mandasse obedecer só para se ver livre do assunto.

Fomos buscar ao anexo o velho guincho, uma lanterna potente e uma corda comprida com gancho metálico. Prendemos tudo à estrutura, verificámos os nós e encostámo-nos à boca escura do poço.

— Dezassete metros — indiquei a Nuno, que já segurava a manivela. — Desça devagar.

A corda começou a correr, rangendo, enquanto a luz desaparecia pouco a pouco nas profundezas. O feixe iluminou paredes húmidas, cobertas de musgo, pedra irregular e marcas antigas de escavação.

— Pare! — ordenei. — Agora um pouco para a esquerda. Deve haver ali uma reentrância.

Nuno rodou a manivela com cuidado. Durante uns segundos só se ouviu o ranger do ferro e o respirar suspenso de todos. Depois veio um som abafado, como metal a tocar em pedra.

— Apanhou qualquer coisa! — gritou ele. — Está preso!

— Puxem. Mas devagar.

Nuno e o motorista começaram a girar a manivela em sentido contrário. A corda esticou-se, pesada. O esforço fazia-lhes saltar os músculos dos braços. Aos poucos, do fundo negro, surgiu uma forma retangular, coberta por uma camada escura de oxidação esverdeada. Era uma pequena arca revestida a cobre, com cantos metálicos e uma fechadura comida pela ferrugem.

Peguei numa barra de ferro, introduzi-a junto ao fecho e forcei. O cadeado partiu-se com um estalido seco.

Levantei a tampa.

Durante um instante, ninguém falou.

Sobre um veludo gasto, quase desfeito pelo tempo, repousavam barras de ouro, baças mas inconfundíveis, alinhadas como se alguém as tivesse guardado ali à espera de uma vida inteira.

Ricardo foi o primeiro a compreender. A expressão arrogante desfez-se-lhe no rosto. Primeiro ficou vermelho, depois perdeu toda a cor, como se o sangue lhe tivesse fugido de uma vez.

— Isto… isto é meu! — rosnou, avançando para a arca. — Foste tu que recebeste o terreno de mim. Portanto, o que está aqui também me pertence!

Tiago colocou-se entre nós num impulso, os ombros tensos, o corpo pequeno mas decidido, como se pudesse proteger-me do mundo inteiro.

Eu apenas olhei para o meu ex-marido. Aquele homem que durante anos me tratara como uma coisa descartável tentava agora arrancar-me das mãos aquilo que ele próprio desprezara e atirara fora.

— Estás enganado, Ricardo. Isto é meu.

Tirei do bolso o documento dobrado em quatro e abri-o com calma. O acordo de partilhas.

— Aqui está a tua assinatura. Cedeste-me voluntariamente a posse plena e exclusiva deste terreno. Com todas as construções nele existentes e — fiz uma pausa, sustentando-lhe o olhar — com tudo o que nele se encontra.

As mulheres da comissão permaneciam imóveis, transformadas em testemunhas silenciosas.

Levantei então o caderno antigo de Pereira.

— E aqui está o diário do proprietário anterior. Há uma anotação reconhecida por notário há trinta anos: “A titularidade do terreno abrange igualmente os direitos sobre os bens subterrâneos nele depositados, encontrando-se a parcela devida ao Estado já regularizada.” A lei está do meu lado, Ricardo. A tua ganância e o teu desprezo trabalharam contra ti.

O rosto dele deformou-se numa careta de raiva impotente. Quisera apagar-me com tanta pressa, livrar-se de mim como se eu fosse peso morto, que acabara por me entregar uma fortuna.

— Vou pôr-te em tribunal! — berrou. — Vou provar que me enganaste!

— Tenta — respondi, encolhendo os ombros. — Depois explicas ao juiz como tentaste empurrar a tua ex-mulher e os teus filhos para a miséria e, por acidente, nos tornaste ricos. Admito que será uma história curiosa de ouvir.

Virei-me para as duas técnicas.

— Como podem constatar, os meus filhos não vivem em condições inadequadas. Pelo contrário, há aqui meios mais do que suficientes para reabilitar a propriedade e construir uma casa grande e segura. A denúncia que receberam era falsa. Tenham um bom dia.

Elas murmuraram qualquer coisa, visivelmente embaraçadas, e apressaram-se para o carro. Pouco depois, desapareceram pela estrada de terra batida.

Ricardo ficou sozinho. Humilhado. Vazio. O motorista e Nuno observavam-no sem a menor compaixão. Naquele momento, o ridículo era ele.

Por alguns segundos, permaneceu parado, como se procurasse uma saída onde já não havia nenhuma.

Casa da Encarnação