— Por favor, Catarina, não me faças rir… que quinhentos euros, quais quê? Viste os rendimentos que aparecem nos relatórios deles? — A voz da sogra, Ana, cortou o silêncio da cozinha ao fim da tarde como uma lâmina. Catarina ficou imóvel no corredor, ainda com um sapato por tirar. — Essa tua nora comprou às escondidas uma moradia em Cascais, enquanto vocês andam aqui a contar cêntimos para massa. Estou-te a dizer: ela não nos considera gente.
Catarina apertou contra o peito o saco das compras. Tostas dietéticas, queijo fresco magro, ervas aromáticas, verduras — o conjunto habitual para o jantar lá de casa. No fundo do saco vinha também uma caixa de bombons caros para Ana, daqueles que Catarina trazia sempre “só para acompanhar o chá”, sabendo perfeitamente que a sogra se tinha habituado a eles. Naquele instante, porém, a caixa, comprada com vontade sincera de agradar, pareceu-lhe uma esmola ridícula.
Na cozinha fez-se uma pausa pesada. Ouviu-se apenas o tilintar de uma colher contra a borda de uma chávena. Era Bruno, o marido, a mexer o açúcar com nervosismo. Fazia sempre aquilo quando a mãe começava com a sua cantiga preferida.
— Mãe, chega, por favor — disse ele, num tom cansado, mas sem verdadeira firmeza. Não soava a protesto; parecia antes um pedido para que ela falasse mais baixo. — Que moradia? A Catarina trabalha como uma condenada há dez anos. Se juntou alguma coisa, foi à custa dela.
— À custa dela! — Ana soltou uma risada seca. — E tu, então, não te matas no trabalho? És engenheiro, meu filho! E ela é o quê? Uma comerciante. Apareceu já com tudo feito, nunca soube o que é partir a espinha. Passa o dia no salão, a limar unhas, e tu ficas a comer as sobras.

Catarina fechou os olhos por um segundo. Então era isso. Dez anos a erguer do nada uma rede de salões de beleza, começando por uma cave minúscula alugada, resumiam-se a “limar unhas”. Já Bruno, há doze anos no mesmo cargo num gabinete de arquitetura, com um ordenado estável de setecentos euros, era quem “partia a espinha”.
Com força, bateu a porta de entrada para que percebessem que ela tinha chegado.
— Cheguei — anunciou, em voz alta, atravessando a sala sem sequer olhar para a cozinha. — Alguém vai jantar?
Ana surgiu de imediato à porta. Corpulenta, imponente, com um penteado alto que a fazia lembrar uma diva de ópera retirada dos palcos, abriu os braços num gesto teatral.
— Ai, Catarina, estávamos precisamente a falar de ti! A elogiar-te, claro. Eu dizia ao Bruno a sorte que ele teve com a mulher. Bonita, inteligente e ainda por cima ganha bem.
Catarina encarou-a. Nos olhos claros, ligeiramente salientes, havia algo escuro e viscoso a agitar-se no fundo. Não era carinho. Nem sequer ódio. Era inveja.
— Obrigada, Ana — respondeu Catarina, seca, entrando na cozinha. — Estou cansada, por isso dispensemos as cerimónias. Ouvi perfeitamente o que estava a dizer.
Bruno continuava junto à janela, a chávena presa entre as mãos. Tinha a expressão de quem desejava evaporar-se dali e aparecer no outro extremo do mundo. Numa ilha deserta, talvez. Ou no fundo de uma mina.
— Ouviste o quê, exatamente? — perguntou a sogra, mudando de tom num instante, agora desafiadora.
— A história da moradia em Cascais — disse Catarina, enquanto pousava as compras na mesa. Os gestos eram controlados, mas os dedos tremiam-lhe ligeiramente. — A massa. E a parte em que eu não vos trato como pessoas.
— E por acaso é mentira? — Ana pôs as mãos na cintura.
Foi ali que tudo se quebrou. Um momento antes ainda havia espaço para fingir que fora uma piada infeliz, para dizer “não era isso que eu queria dizer”. Catarina esperou. Olhou para Bruno. Ele não disse nada. Fitava a chávena como se no fundo dela estivesse desenhado um mapa do tesouro.
— O que é que é mentira? — perguntou Catarina, em voz baixa.
— Tudo! Achas que és especial? Pensas que, por teres mais dinheiro, passaste a ser rainha? E esqueceste-te de que eu e o pai do Bruno passámos a vida a trabalhar na fábrica para lhe comprar este apartamento? Onde é que vocês estavam a viver hoje, se não fosse por nós?
Catarina virou-se para ela. Devagar. Muito devagar. Como uma mola comprimida a distender-se sob controlo absoluto.
— Não me esqueci, Ana. Este apartamento foi comprado por si e pelo Fernando. E eu fui-vos profundamente grata por isso. Precisamente por essa razão, quando fizemos obras de fundo há cinco anos, investi aqui todas as minhas poupanças: quinze mil euros. Transformei uma casa parada no tempo num lugar moderno e habitável. Na altura, a senhora disse “obrigada” e, no dia seguinte, já se tinha esquecido. Quanto ao empréstimo das obras, fui eu que o paguei em dois anos. Sozinha. Sem um cêntimo vosso.
Ana ficou sem resposta por um instante. Não estava habituada a ser contrariada. Na família dela, a regra sempre fora simples: a mãe falava, os outros concordavam. Bruno, como de costume, permanecia calado.
— Ah, então é assim que falas comigo! — exclamou a sogra, endurecendo o rosto e preparando nova investida.
