“Essa tua nora comprou às escondidas uma moradia em Cascais” exclamou Ana, cortando o silêncio da cozinha e deixando Catarina imóvel no corredor

Histórias
Hipocrisia familiar desespera; humilhação intolerável persiste

Levou as mãos ao peito, numa encenação repentina de quem acabava de sentir uma pontada no coração.

— Bruno, estás a ouvir isto? Ela está a atirar-me à cara até o pão que come! Dei-lhe um apartamento, e agora vem esfregar-me na cara umas obras! Agora tem o seu negócio, é uma grande empresária, uma senhora importante! E nós, pelos vistos, somos uns brutos de fábrica, não é?

— Mãe, já chega — disse Bruno, por fim. Pousou a chávena, respirou fundo e olhou para a mulher. — Catarina, para quê isto agora? Ela só fez uma pergunta. Tu levas sempre tudo como se fosse um ataque. Queres que eu peça desculpa por ti?

— Pedes desculpa por mim? — Catarina repetiu, devagar.

Sentiu qualquer coisa dentro dela vibrar, como um fio esticado até ao limite, prestes a partir.

— Vais pedir desculpa porquê, Bruno? Por a tua mãe me ter acabado de chamar vendedeira? Por achar que o dinheiro que eu ganho também vos pertence? Ou por andar a dizer nas minhas costas que eu vos trato como se não fossem gente?

— Entendeste tudo mal! — guinchou Ana. — Eu sempre te tratei de coração aberto! E tu…

— E eu fui a vossa casa de campo no mês passado — interrompeu Catarina, levantando a voz pela primeira vez desde o início da conversa. — Quando rebentou o cano, lembra-se? Larguei três clientes, meti-me no carro e fui até Óbidos porque a senhora chorava ao telefone, a dizer que o Bruno estava no trabalho e que a casa estava a inundar. Fui eu que encontrei uma equipa de emergência, fui eu que paguei a chamada urgente, fui eu que comprei uma bomba nova por cento e oitenta euros, e ainda fiquei três horas com água gelada pelos joelhos enquanto eles substituíam a canalização. Isso também já lhe fugiu da memória, Ana?

O rosto da sogra ficou vermelho, carregado, quase roxo.

— Pedi-te eu alguma coisa? — disparou ela. — Foste porque quiseste! Ninguém te obrigou a aparecer! E a bomba era das mais baratas, eu vi na internet, havia modelos pelo dobro do preço! Agora vais fazer uma lista das tuas caridades, como se eu tivesse de te agradecer até ao fim da vida?

Catarina soltou uma gargalhada curta. Não havia alegria nela. Era um riso nervoso, cortante, que lhe escapou antes que conseguisse travá-lo.

— Das mais baratas? — repetiu. — Ana, era uma bomba italiana, das melhores daquela categoria. Mas o ponto nem sequer é esse. O ponto é que eu vos ajudo sempre. Todos os meses. Umas vezes com dinheiro, outras com compras, outras com eletrodomésticos ou arranjos. Quando esteve doente, levei-lhe medicamentos. Quando precisou de um telemóvel, dei-lhe o meu, que ainda estava praticamente novo. Quando o Bruno não tinha dinheiro para o seu aniversário, fui eu que comprei aquele casaco de pele com que a senhora sonhava há três anos. E nem uma única vez, uma só, me disse um simples “obrigada”.

A cozinha mergulhou num silêncio pesado. Até a chaleira, que há pouco parecia murmurar ao fundo, ficou como se tivesse emudecido.

— O casaco… — murmurou Ana, mas recompôs-se de imediato. — E então? Um presente é um presente, não é moeda de troca! Achas que, por teres dinheiro, podes comprar toda a gente? Comprar o meu respeito? Comprar o amor do meu filho? Sem ele, tu não és nada! Quem és tu, afinal? Uma rapariga vinda de um buraco qualquer do interior para conquistar Lisboa! A tua mãe é professora numa escola de província, o teu pai era um bêbedo que abandonou a família! Estás a armar-te em quê?

Aquilo foi um golpe baixo. Preciso. Calculado. Desferido por alguém que sabia exatamente onde doía mais. Porque, um dia, num momento de confiança, Catarina tinha contado à sogra pedaços da infância, convencida de que falava com alguém quase da família.

A visão escureceu-lhe por segundos. Agarrou-se à borda da mesa para não perder o equilíbrio.

— Cale-se — disse, num tom muito baixo. — Cale-se agora.

— Porquê? A verdade incomoda? — Ana já não conseguia travar-se. Tinha sido tomada por uma fúria cega, como um camião pesado a descer uma ladeira sem travões. — Pensas que eu não percebi porque te casaste com o Bruno? Precisavas de uma morada em Lisboa! Querias um apartamento! Usaste o meu filho!

— Mãe, para! — gritou Bruno de repente.

Estava pálido, com pequenas gotas de suor a brilharem-lhe na testa.

— Mas estás a ouvir o que estás a dizer?

— Tu cala-te também! — atirou Ana, virando-se contra ele. — Ela enrolou-te, e tu deixaste! Ficas aí sentado, dominado por ela, como um trapo!

Catarina endireitou-se. As têmporas latejavam-lhe, mas, quando voltou a falar, a voz saiu quase tranquila. Fria. Daquelas vozes com que se dita uma sentença.

— Ana. Em primeiro lugar, eu já tinha residência em Lisboa três anos antes de conhecer o seu filho. Comprei um quarto numa casa partilhada com dinheiro meu, ganho em três empregos ao mesmo tempo. Em segundo lugar, quando me casei com o Bruno, ele vivia neste apartamento, que não passava de um barracão com papel de parede dos anos setenta e móveis baratos comprados em conjunto. Fui eu que transformei isto numa casa habitável. E, em terceiro lugar, sobre a minha família, convém ter muito cuidado com o que diz.

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