“Leva o teu filho daqui e diz-lhe para não fazer barulho!” disse Miguel num tom seco, fechando a porta com força diante do rosto de Tiago

Histórias
Desprezo doméstico é cruel e inaceitável.

Trouxe também o seu cadeirão favorito. Quanto à procura de uma casa nova, essa avançava sem pressa nenhuma. O agente imobiliário “não devolvia a chamada”, os bairros “não lhe agradavam”, os preços “eram um abuso”. As semanas foram-se esticando até virarem meses. As malas acabaram arrumadas dentro dos armários. O cadeirão instalou-se no melhor canto da sala, junto à janela.

Ana percebia a mudança no ar da casa, mas calava-se. Dizia a si própria que, mais tarde ou mais cedo, tudo acabaria por se compor.

As regras foram aparecendo devagar, quase sem ruído, uma a seguir à outra, como se alguém, durante a noite, empurrasse os móveis uns centímetros para outro sítio.

Primeiro, chamaram a atenção de Tiago por correr no corredor.

— O miúdo pisa o chão como se fosse um cavalo — comentou Maria ao jantar, sem olhar directamente para ninguém.

Miguel virou-se para o filho:

— Tiago, mais baixinho, se faz favor. A avó não aguenta tanto barulho.

Ana ficou em silêncio. Depois vieram as proibições seguintes: desenhos animados sem auscultadores, porque a televisão “lhe punha os nervos em franja”; chamadas em alta-voz para os amigos; e, por fim, os próprios amigos. Maria declarou que crianças de fora só traziam confusão e desarrumação. Tiago passou a poder brincar apenas no quarto, e só até às sete da tarde. Até uma gargalhada mais solta bastava para arrancar da sala um olhar carregado de reprovação.

— A minha mãe precisa de sossego — repetia Miguel sempre que Ana ensaiava uma queixa. — Tenta compreender. Ela já tem idade.

E Ana compreendia. Ou, pelo menos, obrigava-se a compreender. Uma vez. Outra. E outra ainda.

Convencia-se de que era uma fase. Que a sogra andava cansada. Que Miguel apenas queria evitar discussões. Mas, semana após semana, o filho tornava-se mais apagado. Já não entrava no quarto dos pais de rompante pela manhã. Deixou de espalhar peças de construção pela mesa da sala. Passava cada vez mais tempo fechado no seu quarto, com o tablet ou um livro, como se precisasse de pedir licença até para atravessar o corredor.

Numa noite, Ana espreitou para dentro do quarto dele. Tiago estava deitado, imóvel, a fitar o teto.

— Porque é que ainda não dormiste? — perguntou ela em voz baixa.

O menino demorou a responder. Depois virou a cabeça devagar.

— Mãe… eu atrapalho-vos?

Ana sentou-se na beira da cama e puxou-o para si com mais força do que pretendia. Não encontrou resposta que lhe servisse. E Tiago também não perguntou mais nada.

No domingo, regressaram todos de um passeio: Ana, Miguel, Tiago e Maria. Lá fora estivera uma tarde bonita, com sol de outono, e Tiago tinha passado o caminho a chutar folhas secas e a rir. Ana olhava para ele e pensava que era assim que a vida devia ser.

Ao chegar a casa, foi direita para a cozinha preparar o jantar. Tiago ficou por perto, a pôr os pratos na mesa, a rondá-la contente, perguntando se podia colocar o pão no cesto.

Casa da Encarnação