— Claro que podes — respondeu Ana, passando-lhe a mão pelos cabelos com ternura.
A mesa ficou bonita, quase festiva. Ana ainda foi buscar duas velas pequenas, metidas em castiçais de vidro, e acendeu-as no centro, como se aquela luz discreta pudesse tornar a noite mais doce, mais abrigada, mais parecida com uma família.
Maria entrou na sala devagar e deixou-se cair no cadeirão com um suspiro pesado.
— Estou estafada — murmurou, arrastando as palavras. — Tiago, vê lá se não fazes tanto barulho com esses pratos.
O menino ficou imóvel. Pousou com todo o cuidado o último prato que tinha nas mãos e afastou-se um passo, como se tivesse feito alguma coisa errada.
Miguel virou-se então para Ana, sem grande cerimónia:
— Leva-o para a cozinha. Que coma lá. Nós queríamos jantar em paz.
O silêncio caiu sobre a sala de uma só vez. Tiago não protestou, não perguntou porquê, não fez birra. Pegou apenas no prato dele e começou a caminhar lentamente para a cozinha, com aquela obediência triste de quem já se habituara a não ocupar espaço.
Ana ficou a vê-lo afastar-se. Reparou nos ombros pequenos, encolhidos. No prato seguro pelas mãos infantis. Na forma como o filho aceitava ser posto de lado dentro da própria casa.
E, pela primeira vez em muito tempo, Ana não tentou suavizar a situação. Não arranjou desculpas para Miguel, não pediu a Tiago que tivesse paciência, não disse “vá, é só hoje”. Ficou apenas ali, parada, a perceber com uma nitidez dolorosa que o filho se preparava para jantar sozinho na cozinha do apartamento que também era dele.
Aguentou ainda um segundo. Depois avançou em silêncio, alcançou Tiago, retirou-lhe o prato das mãos com delicadeza e voltou a colocá-lo na mesa, exatamente no lugar onde estivera.
— Senta-te — disse-lhe, num tom baixo, puxando a cadeira para ele.
Tiago obedeceu, confuso, sem compreender bem o que estava a acontecer. Ana sentou-se ao lado dele.
Miguel olhou-a primeiro com espanto. Esse espanto, porém, depressa se transformou em irritação.
— Ana, por amor de Deus, que encenação é esta? A minha mãe está cansada, eu só pedi uma coisa simples…
— Este apartamento é meu — interrompeu ela, com uma calma firme. — E é também do meu filho. Se alguém se sente apertado ou incomodado por jantar à mesma mesa que uma criança, pode perfeitamente ir comer para a cozinha.
Maria soltou um gemido teatral e levou a mão ao peito.
— Ah, então é assim. Agora põem uma pessoa de idade fora da mesa. Bonito. Era só o que me faltava ver.
— Ninguém a está a pôr fora de lado — respondeu Ana, sem levantar a voz. — A senhora está sentada à mesa. O meu filho também fica sentado à mesa. A partir de hoje, é assim que vai ser.
Miguel elevou o tom, falando de respeito, de ingratidão, de consideração pela mãe. Ana ouviu-o sem o interromper. Quando ele se calou por um instante, ela levantou-se, foi até à estante, abriu uma gaveta e retirou a pasta onde guardava os documentos do apartamento. Depois colocou-a diante do marido, sobre a mesa.
— Se for preciso, eu relembro-vos a quem pertence esta casa.
