A noite prometia ser tranquila, quase festiva. Ana pôs a mesa para dois: carne assada com alecrim, uma salada leve e uma garrafa de tinto já aberta, guardada havia meses para uma ocasião digna. Nesse dia completavam-se exatamente dez anos desde que ela e o marido tinham registado a própria empresa de construção. Não a tinham comprado pronta, nem recebido de família: tinham-na erguido do zero, num T1 arrendado, onde o velho computador zumbia pela noite dentro e o café solúvel arrefecia no parapeito da janela.
Ana ainda se lembrava do cheiro a tinta do primeiro escritório. Lembrava-se das mãos de Rui impregnadas de gasóleo depois das visitas às obras. Lembrava-se também da voz dele, baixa e confiante, a murmurar-lhe ao ouvido: “Ana, nós vamos conseguir. Tu só tens de fazer as contas. És inteligente, sem ti eu não sou nada.” E ela fez as contas. Tratou da contabilidade, cortou despesas, negociou com fornecedores e sabia de cor cada cêntimo que entrava e saía do negócio. Durante dez anos, nunca pediu um salário superior ao de um funcionário comum, porque acreditava que tudo era dos dois: tudo para a família, tudo para o futuro. Para o futuro deles. Nem percebeu quando aquele “nosso” começou, devagar, a significar apenas “dele”.
Ajeitou uma madeixa que lhe caíra para o rosto, olhou para o relógio e sorriu. Rui estava atrasado, mas, nos últimos meses, isso tornara-se quase rotina. Ele justificava-se sempre do mesmo modo: “É trabalho, Ana. Ando num corrupio. Estamos a crescer.” E ela acreditava. Sentada diante da cadeira vazia, recordava a conversa da véspera sobre a casa. Continuavam a viver no apartamento antigo que os pais dela lhe tinham deixado.
Rui prometera muitas vezes que comprariam finalmente uma casa deles: ampla, luminosa, com um closet grande e vista para um jardim. “Assim que fecharmos este concurso”, dizia ele, “escolhes o que quiseres, até uma cobertura, se te apetecer.” Na véspera, anunciara que nessa noite lhe traria uma surpresa. Ana convencera-se de que ele falava de chaves.
A fechadura estalou às oito e meia. Rui entrou com espalhafato, trazendo um ramo de lírios brancos — flores que Ana detestava por causa do odor enjoativo, quase fúnebre, embora nunca tivesse tido coragem de lho dizer para não o magoar. Na outra mão segurava uma pasta de pele. Ana levantou-se para o receber, sentindo o coração acelerar. Mas havia qualquer coisa errada na expressão dele. Não parecia um homem prestes a oferecer um presente à mulher. Parecia antes alguém que já vencera uma disputa e só ainda não revelara o prémio. Atirou a pasta para cima da mesa, ao lado das entradas, sem sequer reparar no jantar, e sentou-se de perna cruzada.

— Então, Ana, aqui tens a surpresa — disse ele, com um sorriso torto que a feriu de imediato. — Limpei-te a poupança. Aquela que andavas a guardar para uma emergência. Tirei tudo, até ao último cêntimo.
Ana ficou imóvel, com o guardanapo suspenso na mão antes de o pousar. Fitou-o, à espera de que ele se risse, dissesse que era brincadeira e tirasse do bolso uma caixinha de veludo. Mas Rui não estava a brincar. Abriu a pasta e empurrou os papéis na direção dela. Era um contrato de compra e venda de um apartamento num empreendimento novo, na periferia da cidade. No campo reservado ao comprador, aparecia o nome da irmã dele: Inês.
— Rui, isto só pode ser engano — murmurou Ana, sentindo os dedos ficarem dormentes. — Ali havia oitenta mil euros. Juntámos esse dinheiro durante seis anos. Veio do meu salário, das tuas obras. Eu cheguei a poupar até no dentista, dispensei anestesia mais do que uma vez para não gastar. Tu dizias que era para a nossa casa.
— A Inês teve um filho, precisa mais do que nós — respondeu Rui, seco, estendendo a mão para o copo de vinho que ela preparara para os dois. — Está sozinha com o miúdo. Nós, tu e eu, estamos orientados. Tu és uma mulher esperta, Ana, vais ganhar mais. Para quê esse drama todo? Querias uma casa? Quando houver dinheiro, há casa. Por enquanto, a Inês vai viver como deve ser. Ela merece.
— Ela merece? — Ana ouviu a própria voz como se viesse de outra divisão. — Ela nunca trabalhou um dia na vida. No ano passado compraste-lhe um carro. Depois pagaste-lhe férias no Algarve. Agora deste-lhe um apartamento. Com dinheiro que nós dois ganhámos. Não achas que estás a confundir as coisas?
— Eu é que estou a confundir? — Rui inclinou-se para a frente, e o sorriso dele tornou-se duro, quase animal. — Tu, minha querida, é que perdeste a noção do teu lugar. A empresa está em nome da minha mãe. Eu sou o gerente. Tu és uma contabilista contratada, recebeste o teu ordenado e não tens nada que meter o nariz nas minhas decisões. Esqueceste-te de quem és. Se queres continuar pendurada à minha custa, cala-te e sorri. Se não gostas, a porta da rua é serventia da casa. Mas lembra-te de uma coisa: sem mim, não és ninguém. Quem é que vai querer uma mulher de trinta e oito anos, sem homem e com uns trocos no cartão?
Bebeu o vinho de uma só vez, levantou-se e largou o guardanapo dentro da salada. Ana permaneceu junto à mesa, a olhar para os documentos espalhados, para o nome da cunhada impresso em letras grossas, para as gotas de vinho que tinham manchado uma das folhas brancas. Não chorou. Dentro dela, algo se soltou e caiu, pesado e gelado, como uma pedra a afundar-se no estômago. Rui agarrou o casaco do cabide e voltou-se à porta.
— Vou ter com a Inês. Vamos brindar à casa nova. Tu fica aí, apanha ar e pensa bem no teu comportamento. E nada de disparates. Afinal, és uma mulher inteligente.
A porta bateu. Ana ficou sozinha. Sentou-se devagar e permaneceu assim cerca de dez minutos, sem se mexer, com os olhos presos num ponto qualquer da parede. Depois levantou-se, pegou no telemóvel e viu que tinha recebido uma mensagem. Era de Inês. A fotografia mostrava a mão roliça dela, com unhas pintadas de uma cor berrante, apertando um molho de chaves diante de uma porta de entrada novíssima. A legenda dizia: “Obrigada pelo presentinho, cunhadinha.”
Ana pousou o telefone e aproximou-se da janela. Lá fora, os candeeiros lançavam luz amarela sobre a rua, e alguns carros passavam a buzinar ao longe. A cidade continuava a respirar no seu ritmo habitual, sem desconfiar de que, naquele instante, uma mulher acabava de deixar de ser apenas uma esposa paciente.
Não foi para o quarto. Não telefonou a amigas para se lamentar da vida. Não caiu de joelhos nem desatou a chorar alto. Ana dirigiu-se à arrecadação, onde, atrás de caixas antigas de sapatos, havia um pequeno cofre de que o marido se esquecera há muito, convencido de que ali dentro não existiam senão velhos diários dela. Introduziu o código — a data do casamento, que Rui não se lembraria nem sob ameaça — e retirou de lá um portátil.
Era um computador pequeno, cinzento, de ecrã apagado, oficialmente abatido por inutilidade. Rui vira-o uma vez e perguntara: “Porque é que ainda usas essa sucata, se temos máquinas novas?” Ela respondera apenas: “Estou habituada. Dá-me jeito.” Ele encolhera os ombros e esquecera o assunto. Rui esquecia sempre aquilo que não lhe despertava interesse.
Ana abriu o portátil, escreveu a palavra-passe e entrou numa base de dados que não existia nos servidores da empresa. Ali estava guardada a contabilidade verdadeira dos últimos três anos. Não a versão enviada à Autoridade Tributária, com números arredondados e lucros modestos, mas a real. Folhas de cálculo, faturas, mapas de pagamentos, contactos de intermediários, referências bancárias de sociedades de fachada e empresas criadas para desaparecer, por onde tinham feito circular centenas de milhares de euros.
