“Não me arrastes para um lugar onde eu não quero estar” replicou Ana com firmeza enquanto Miguel, furioso, arrancou o gorro e atirou-o com força para o móvel da entrada

Histórias
Cruel, injusto e profundamente desconcertante.

— Tens noção do que acabaste de dizer? — Miguel estava plantado no meio da cozinha, ainda de casaco vestido, o telemóvel preso na mão, sem sequer ter tirado os sapatos. — Estás a dizer-me isto em dezembro. Mesmo antes do Ano Novo.

— Tenho noção, sim — respondeu Ana, serena, levando aos lábios um gole de chá que já arrefecera. — É precisamente por isso que falo agora. Mais tarde seria pior.

— Mais tarde quando? Quando a minha mãe estiver gelada dentro daquela casa? — a voz dele subiu de tom. — Quando já nem se conseguir levantar?

— Miguel, poupa-me ao drama — disse Ana, encarando-o sem desviar os olhos. — Acabaste de vir de lá. Ela está viva, está bem e, segundo as tuas próprias palavras, “só se anda a queixar”.

— Ela não se anda a queixar, está a pedir ajuda! Não é a mesma coisa!

— Não — Ana pousou a caneca devagar. — Ela está a pedir-te que resolvas tudo da forma que te convém. E tu queres resolver da forma que te convém, mas à minha custa.

Miguel soltou uma gargalhada curta, tensa, carregada de irritação.

— Já cá faltava. Lá estás tu a distorcer tudo. Eu apenas disse que a minha mãe tem dificuldade em estar sozinha. É inverno, está frio, a casa é velha. Onde é que está a distorção?

— E eu apenas disse que não estou disposta a carregar isso às costas. Nem fisicamente, nem emocionalmente.

— Então quem é que deve carregar? — Ele deu um passo na direção dela. — Eu sozinho? Achas que sou feito de ferro?

— És um homem adulto. E ela é tua mãe — Ana encolheu ligeiramente os ombros. — Eu não te estou a impedir de nada. Vai lá. Ajuda-a. Faz aquilo que achares correto.

— Estás a gozar comigo? — Miguel riu-se, seco. — Tu ficas aqui, numa casa quente, que por acaso é tua, enquanto a minha mãe passa frio, e a tua resposta é “vai lá”?

— A minha resposta é: não me arrastes para um lugar onde eu não quero estar — replicou Ana, com firmeza. — Pelo menos estou a ser honesta.

Ele arrancou o gorro da cabeça e atirou-o com força para cima do móvel da entrada.

— É por isto que a minha mãe nunca gostou de ti. Disse-me logo no início: “Ela é fria, Miguel. Não quer saber de ninguém.”

— Então diz à tua mãe — Ana levantou-se — que eu não tenho obrigação nenhuma de lhe agradar. E muito menos de viver segundo as expectativas dela.

— Tu ouves o que dizes? — ele quase gritava. — Estamos a falar de família! Pessoas normais, em dezembro, juntam-se, ajudam-se, preparam as festas!

— Exatamente — Ana esboçou um sorriso sem alegria. — Pessoas normais. Connosco, todos os dezembros são iguais: a tua mãe, a casa dela, os problemas dela, e tu a fingires que nós os dois não temos vida própria.

Dezembro cheirava a tangerinas e a discussões.

— Ana — Miguel baixou a voz e sentou-se à frente dela. — Vamos falar como gente. O Ano Novo está à porta. Ela está sozinha. Ao menos nas festas, podíamos trazê-la para cá.

Ana inspirou lentamente, como se precisasse de medir cada palavra.

— Repete lá isso.

— Quero dizer… — ele hesitou. — Só por algum tempo. Dois meses, talvez. Enquanto durar o frio.

— Para a minha casa? — perguntou ela, com uma calma cortante.

— Para a nossa — corrigiu ele, quase por reflexo.

— Não — cortou Ana.

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