— Não é “nossa”. É minha. E a resposta continua a ser não.
— Nem sequer queres conversar sobre isso?!
— Converso sobre isto há três anos, Miguel. Todos os dezembros. Só mudam as palavras que usas para pedir.
— Tens medo de assumir responsabilidades! — atirou ele, sem se conter. — Para ti é mais fácil levantar um muro e dizer: “Não é problema meu.”
— Porque não é — respondeu Ana, serena. — Eu casei contigo, não com a tua mãe. E nunca aceitei viver num casamento a três.
Miguel levantou-se de repente.
— E se eu te disser que, sem isto, nós não avançamos? O que fazes?
Ana fitou-o com uma atenção fria.
— Então quer dizer que já não estávamos a avançar para lado nenhum.
O silêncio caiu entre os dois, espesso e pegajoso. Lá fora, alguém lançava foguetes antes de tempo, tortos, barulhentos, absurdos, como tantas vezes acontecia nos bairros residenciais a meio de dezembro.
— Estás a chantagear-me? — perguntou Miguel, num fio de voz.
— Não. Pela primeira vez estou a ser completamente honesta.
Ele passou a mão pelo rosto, cansado.
— Estou farto, Ana. A sério. Estou esgotado. A minha mãe pressiona-me, tu pressionas-me, e eu fico no meio das duas feito parvo.
— Eu não te pressiono — disse ela, abanando a cabeça. — Apenas não aceito.
— Para ti é igual. Se não for como queres, então sou contra ti.
— Não. Se não for como tu queres, então eu passo a ser a má. A egoísta. A mulher sem coração.
— És tu que te chamas isso.
— Não, Miguel. És tu que me chamas assim. Há muito tempo.
Ele voltou a sentar-se, os olhos presos ao tampo da mesa.
— Hoje ela disse… — começou, com a voz abafada — que, se as coisas continuarem assim, a casa acabará por ficar para mim de qualquer maneira. Mas que não sabe se ainda vai viver para ver isso.
Ana ergueu lentamente o olhar.
— Pronto. Chegámos ao verdadeiro assunto.
— Não comeces.
— Não estou a começar nada. Estou a ouvir. Neste momento não estás a pensar em como ajudá-la. Estás a pensar no que vem depois.
— Isso é mentira!
— Não é. E tu sabes.
Miguel levantou-se num movimento brusco.
— Sabes que mais? Vou ter com ela. Agora mesmo. E tu pensa. Pensa muito bem. É Ano Novo, Ana. Não é a melhor altura para ultimatos.
— Isto não é um ultimato — disse ela, baixo, enquanto ele se afastava. — É o meu limite.
A porta bateu.
Ana ficou sozinha.
Na cozinha, misturavam-se o cheiro do chá e o ar frio que entrava pela janela entreaberta. De algum apartamento vizinho chegava o som alegre de um anúncio de Natal na televisão.
Ela sentou-se e envolveu a caneca com as duas mãos.
Todos os dezembros, a mesma cena. Só que, naquele ano, já não estava disposta a fingir que aceitava tudo.
O telemóvel permaneceu calado. O relógio marcava os segundos. Do outro lado do vidro, caía neve molhada, suja antes mesmo de tocar o chão.
Uma hora depois, chegou uma mensagem.
“Estou em casa da minha mãe. Temos de falar a sério. Depois das festas.”
Ana desligou o ecrã.
— Depois das festas — repetiu em voz alta. — Claro.
Ela já sabia: dali em diante, tudo se tornaria mais difícil. Até o silêncio, às vezes, era uma decisão. E também viriam as conversas, e as escolhas.
