— Ana, não me provoques, porque ainda te vais arrepender! A minha mãe e a minha irmã precisam de um carro, e quem o vai pagar és tu! — rosnou o marido, entre dentes.
— Cala-te! Ana, não me tires do sério, que te vais dar mal! A minha mãe e a minha irmã precisam de carro, e vais ser tu a comprá-lo! — repetiu Miguel, com veneno na voz.
As palavras dele ficaram suspensas no ar da cozinha como uma nuvem tóxica. Ana estava junto ao fogão, de costas voltadas, e sentiu qualquer coisa dentro de si arrefecer devagar. Não era uma dor que queimasse, nem uma ferida que rasgasse. Era antes um congelamento silencioso, como se uma parte dela se desfizesse em lascas de gelo. Pousou a concha com cuidado. A sopa ainda borbulhava na panela, espalhando cheiro a alho e a ervas, enquanto lá fora a chuva miudinha de outubro batia nos vidros. Naquele instante, algo invisível, mas enorme, deslocou-se dentro da vida dela.
— O que é que disseste? — perguntou, voltando-se. A voz saiu baixa, mas firme.
Miguel estava sentado à mesa, esparramado na cadeira, a deslizar o dedo pelo telemóvel. Nem sequer levantou os olhos. Tinha quarenta e dois anos, chefiava um departamento numa empresa comercial, usava um fato de trezentos euros e trazia no rosto aquela expressão superior, condescendente, que antes ela confundira com segurança. Houve um tempo em que vira nele um apoio. Agora via apenas arrogância.

— Ouviste perfeitamente. A minha mãe anda no mesmo autocarro há trinta anos. A Catarina está grávida, também precisa de se deslocar. És tu que geres o dinheiro, portanto resolves isso.
Ana sorriu. Estranho: o mundo parecia ruir e, ainda assim, ela sorria.
— Com que dinheiro, Miguel? Com aquilo que eu ganho no salão? Sessenta horas por semana, pernas inchadas, clientes histéricas… esse dinheiro é meu.
— Nosso — corrigiu ele, finalmente desviando os olhos do ecrã. O olhar estava frio, quase estrangeiro. — Somos uma família. Ou já te esqueceste?
Dezassete anos de casamento. Dois filhos: Tiago na universidade, Inês no nono ano. Um apartamento com crédito à habitação, pago tanto por ela como por ele. Os seus pés, calçados no tamanho trinta e sete, tinham-se gasto entre o trabalho e as tarefas de casa. As mãos cheiravam sempre a cremes, vernizes e desinfetante; ao fim do dia, as costas latejavam-lhe. E ele limitava-se a ficar ali sentado e a dizer: “vais comprar”.
— Não me esqueci — Ana desligou o fogão. — Só não me lembro é de alguma vez a tua família me ter perguntado do que eu precisava.
Miguel levantou-se. Alto, largo de ombros. Antigamente, aquele corpo fazia-a sentir-se protegida. Agora parecia-lhe apenas uma forma de ocupar espaço e intimidar.
— Lá vem isso outra vez — resmungou, indo até à janela. Acendeu um cigarro, apesar de ela lhe ter pedido mil vezes que não fumasse dentro de casa. — Sempre com as tuas mágoas. A minha mãe está velha, e a Catarina está quase a ter o bebé…
— A tua querida Catarina tem vinte e oito anos e um marido. Que seja ele a comprar-lhe o carro! — Ana sentiu finalmente o calor romper a camada de gelo que se formara dentro dela. — E à tua mãe dou eu cem euros todos os meses “para medicamentos”, quando ela tem mais saúde do que eu!
— Não te atrevas a falar assim da minha mãe!
Foi nesse ponto que alguma coisa se partiu de vez. Ana percebeu-o quase fisicamente. O ar da divisão tornou-se mais denso, mais pesado, como se a própria cozinha tivesse encolhido à sua volta.
— Vou sair — disse ela, tirando o avental e pendurando-o junto à porta de entrada. — A sopa está feita. Aquece-a, se quiseres.
— Sair para onde? — Miguel avançou para a porta, mas ela já vestia o casaco. As mãos tremiam-lhe; mesmo assim, conseguiu puxar o fecho até cima.
— Para a rua. Preciso de ar. E de pensar.
— Ana!
Ela não se voltou. A porta fechou-se com força atrás de si, as escadas desceram-lhe debaixo dos pés quase sem que desse por isso e, instantes depois, estava lá fora: numa rua húmida, escura, cheirando a outono… e a liberdade.
Ana caminhou depressa, sem saber ao certo para onde ia. Passou pela mercearia onde costumava fazer compras às sextas-feiras. Depois pelo abrigo do autocarro, onde todas as manhãs via as mesmas caras cansadas, as mesmas pessoas agarradas a sacos e mochilas. Com chuva, a cidade parecia outra: desfocada, irreal, quase cinematográfica. A luz dos candeeiros tremia nas poças, os carros deslizavam no asfalto molhado e, de algures, vinha música pela porta aberta de um café.
Parou diante da montra de uma ourivesaria. Correntes de ouro, pulseiras, anéis, pequenos brincos dispostos sobre veludo — tudo cintilava sob a iluminação branca. Quando tinha sido a última vez que alguém lhe oferecera um presente a sério? No aniversário, Miguel entregara-lhe um envelope com dinheiro e dissera: “Compra o que quiseres.” Ela comprara sapatilhas para Inês e uma mochila nova para Tiago.
O telemóvel vibrou no bolso. Miguel.
Ana recusou a chamada.
Tinha de continuar a andar. Talvez até ao centro comercial. Lá dentro havia calor, luz, bancos onde se podia sentar, um café qualquer no piso da restauração, tempo suficiente para juntar os pensamentos sem ter a voz dele a esmagá-los. Apanhou um autocarro pequeno que a deixou perto da entrada. No átrio imenso, foi recebida pelo cheiro quente a pipocas.
