O aroma das pipocas misturava-se com o cheiro a roupa acabada de estrear. À sua volta, pessoas passavam apressadas, carregadas de sacos, rindo, falando alto, como se a vida fosse simples. Uma vida alheia. Leve, despreocupada — precisamente o tipo de vida que a dela deixara de ser havia muito. Demasiado tempo.
Subiu até ao terceiro piso, pediu um cappuccino e sentou-se junto à janela. Lá fora, a cidade à noite cintilava em reflexos e letreiros luminosos. O telemóvel voltou a acender-se. Desta vez era a sogra: “Ana, o Miguel contou-nos tudo. Porque é que estás a portar-te como uma criança? Somos família. A Catarina precisa mesmo do carro, o bebé está quase a chegar…”
“O bebé.” Ana tinha dois filhos, mas ninguém alguma vez falara deles assim, com essa ternura açucarada. Os filhos dela eram apenas responsabilidade dela. As noites sem dormir tinham sido dela. O dinheiro para explicações, atividades e propinas saíra sempre do esforço dela.
O café arrefeceu sem que ela desse por isso. Dentro da sua cabeça, começou a formar-se uma imagem estranhamente nítida: durante dezassete anos, fizera tudo como era suposto. Trabalhara, aguentara, ajudara, calara. E o que recebera em troca? Uma ordem. A ordem de comprar um carro para pessoas que nunca se tinham dignado a agradecer-lhe verdadeiramente nada.
— Ai, desculpe! — alguém bateu-lhe na mala, que caiu ao chão.
Ana apanhou-a e sorriu automaticamente à rapariga desconhecida.
E, nesse instante, uma pergunta atravessou-a: quando tinha sido a última vez que sorrira por vontade própria, e não por hábito?
Quando chegou a casa, já passava das dez. Rodou a chave com cuidado, quase sem ruído, mas Miguel ouviu-a na mesma. Estava sentado na sala, a televisão ligada diante dele, embora não estivesse a olhar para o ecrã. Esperava-a.
— Chegaste — disse, levantando-se.
Ana percebeu logo que seria pior do que de manhã.
— Miguel, estou exausta. Falamos amanhã…
— Amanhã? — Ele avançou na direção dela, de rosto congestionado e olhos acesos. — Fizeste-me passar vergonha diante da minha mãe! Ela telefonou-me a chorar! Disse que foste malcriada com ela!
— Eu hoje nem sequer falei com a tua mãe — respondeu Ana, descalçando-se e alinhando os sapatos junto à parede. Os pés latejavam-lhe de tanto andar.
— Não mintas! Recusaste-lhe a chamada! Ela só queria falar contigo como deve ser, e tu…
— Miguel, por favor. Já chega. Estamos nervosos, cansados. De manhã…
— Não! — gritou ele, batendo com o punho nas costas do sofá. — Falamos agora! Vais pedir um empréstimo e vais comprar aquele carro. Percebeste?
Ana soltou o ar devagar. Olhou para aquele homem — o pai dos seus filhos, a pessoa com quem partilhara quase vinte anos de vida. E, naquele momento, não o reconheceu. Não reconheceu nada nele.
— Não vou pedir empréstimo nenhum — disse, em voz baixa.
— Como assim, não vais? — Miguel ficou ainda mais vermelho. — Perdeste completamente a cabeça? Ouviste o que eu te disse?
— Ouvi. Mas não vou contrair outro crédito. Já pago o empréstimo da casa e ainda tenho a propina do Tiago na universidade. Não aguento mais uma prestação.
— Aguentas, sim! — aproximou-se tanto que a obrigou a erguer o rosto para o encarar. — Trabalhas mais. Fazes turnos extra. A minha mãe passou a vida inteira…
— A tua mãe, a tua mãe! — Ana elevou a voz de repente, e Miguel chegou a hesitar por um segundo. — E eu? Eu sou o quê? Não sou uma pessoa? Trabalho sessenta horas por semana! Tenho as costas tão rebentadas que à noite mal consigo endireitar-me! Os meus filhos quase não me veem porque estou sempre a ganhar dinheiro! Para quê? Para a tua mãe, para a tua irmã, para as tuas exigências?
— Cala-te! — berrou ele. — Não te atrevas a falar assim! És minha mulher! Tens obrigações!
— Obrigações? — Ana sentiu qualquer coisa queimar-se dentro dela de forma definitiva. Como se o último fio que ainda segurava aquele casamento se tivesse fundido. — Tenho obrigação de suportar grosserias? De sustentar a tua família? De ficar calada?
— Tens! — Miguel agarrou-a pelos ombros e abanou-a. — Tens, sim! Porque és minha mulher! Nós somos uma família!
Ana soltou-se com brusquidão. O coração batia-lhe tão forte que lhe martelava nas têmporas.
— Não me toques.
— Senão quê? — Na voz dele surgiu uma coisa nova, despida de disfarces: ameaça. — O que é que vais fazer? Ana, estou farto disto. Digo-te pela última vez: amanhã vais ao banco, pedes o crédito e compras o carro à minha mãe. Se não o fizeres, divorcio-me de ti.
A palavra ficou suspensa entre eles, pesada, irremediável.
— O que é que disseste? — Ana mal acreditava no que tinha ouvido.
— Ouviste muito bem — respondeu Miguel, cruzando os braços. — Divorcio-me. A casa é minha, está em meu nome. Os miúdos ficam comigo. E tu vais para onde quiseres. Para o teu precioso emprego, por exemplo. Podes dormir lá.
— Tu enlouqueceste — murmurou ela.
— Não, quem enlouqueceu foste tu! — Ele voltou a aproximar-se. — Achas que és insubstituível? Que não nos desenrascamos sem ti?
