“E se desta vez ficássemos só nós os três?” sussurrou Ana, pedindo um jantar íntimo que João rejeitou

Histórias
Humilhante ter o próprio lar tão desrespeitado.

Ana percebeu logo de manhã que aquele dia lhe iria pesar nos ombros. João andava de um lado para o outro pela casa, inquieto, mudando cadeiras de sítio, contando pratos, abrindo armários para confirmar se nada faltava. A família dele nunca aparecia em pouca quantidade: vinha Maria, a irmã, com o marido, Pedro; vinha a tia Teresa; vinha ainda Carlos, o primo, acompanhado da mulher. E, sempre que todos entravam naquela casa, Ana deixava de se sentir dona do próprio lar. Passava a parecer-lhe que era apenas uma hóspede tolerada por educação, alguém que ocupava temporariamente um espaço que os outros julgavam seu.

— E se desta vez ficássemos só nós os três? — sugeriu ela em voz baixa, enquanto cortava os ingredientes para a salada. — Fazíamos uma coisa simples, calma, em família.

João nem desviou os olhos do jornal.

— Ana, não comeces. Nós festejamos sempre juntos. São da família.

Família. A palavra ficou-lhe atravessada, amarga. Talvez fossem família para ele. Para Ana, eram pessoas que tratavam o apartamento dela como se lhes pertencesse, o frigorífico como se fosse de uso comum e a própria Ana como se tivesse sido contratada para servir.

Às duas da tarde, a campainha tocou. Maria foi a primeira a entrar, como de costume: ruidosa, expansiva e sem pedir licença a nada. Tinha quarenta anos, cabelo pintado e o hábito de falar sempre acima do tom necessário. Mal cumprimentou, dirigiu-se ao frigorífico.

— João, olá! — deu um beijo rápido na face do irmão e abriu logo a porta. — Ai, mas isto está tão vazio! Ana, onde está o bolo? Pensei que tivesses preparado alguma coisa especial.

— O bolo está na caixa, em cima da mesa — respondeu Ana, contida, sem parar de distribuir a salada pelos pratos.

— Comprado? — Maria fez uma careta. — Ora, Ana, com duas mãos que tens, podias ter-te esforçado um bocadinho e feito em casa.

Logo atrás entrou Pedro, marido de Maria: baixo, com entradas pronunciadas e uma expressão permanentemente contrariada. Sem dizer palavra, foi até à sala, examinou os móveis como quem avaliava defeitos e deixou-se cair no cadeirão.

— João, quando é que trocam este sofá? — gritou de lá. — Isto já está todo abatido. Uma pessoa nem se senta como deve ser.

A tia Teresa chegou por último. Era uma mulher magra, perto dos sessenta, de queixo afiado e observações ainda mais cortantes. Aparecia sempre com o ar de quem fora chamada pessoalmente para pôr ordem na vida dos outros.

— Ai, minha querida Ana — disse, passando os olhos pela cozinha —, então o lava-loiça não está a brilhar porquê? E estas toalhas tão encardidas? Uma mulher deve cuidar da casa. A casa é o espelho dela.

Ana fechou as mãos com força, mas não respondeu. João aproximou-se por trás e pousou-lhe a mão no ombro. Era um gesto supostamente tranquilizador, porém, naquele instante, só a irritou mais.

— Vá, sentem-se à mesa — pediu ele, num tom conciliador. — A Ana trabalhou imenso, preparou uma data de coisas.

Quando todos se instalaram, começou aquilo a que Ana, em silêncio, chamava o tribunal da família. Maria serviu-se de salada e, à primeira garfada, torceu a boca.

— Está um pouco sem graça. Ana, não tenhas medo do sal, os homens gostam da comida mais apurada. E também falta maionese. Assim fica seco.

Teresa aproveitou de imediato a deixa.

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