— Ainda ontem comentava com o João — entrou Teresa, sem perder a oportunidade — que vocês bem podiam pensar em obras. O papel de parede já não tem cor nenhuma. E, no geral, um casal novo devia começar a olhar mais a sério para o futuro.
Ana continuou a comer a salada em silêncio, como se, à força de mastigar devagar, conseguisse não ouvir. Tentou prender-se aos movimentos simples: o garfo, o prato, o copo. Mas, quando chegou o prato principal — o frango com molho de natas que ela fazia como especialidade —, Teresa levou uma garfada à boca e franziu logo o nariz.
— É curioso terem-te casado com esses dotes para a cozinha — soltou, sem se dar sequer ao trabalho de disfarçar. — O frango não sabe a nada, e o molho parece água. No meu tempo, as raparigas aprendiam desde pequenas a pôr uma mesa como deve ser.
Maria desatou a rir, achando graça à crueldade.
— Oh, Teresa, também não exageres. A Ana ao menos é magrinha. Embora… magra demais, na verdade. Tens um ar tão abatido, Ana. Devias ganhar uns cinco ou sete quilos, fazia-te bem. Assim pareces doente, como se nesta casa nem houvesse dinheiro para comprar comida decente.
Pedro pousou o garfo com um ar importante, como quem se preparava para anunciar uma descoberta grave.
— Já agora, fui há pouco à casa de banho e reparei numa coisa: há bolor nas juntas dos azulejos. Ana, essas coisas não se deixam andar. Isso é falta de higiene. Uma dona de casa atenta vê logo esse tipo de problema.
Nesse instante, qualquer coisa se partiu dentro dela. Ou talvez tivesse sido apenas o estalido final de uma paciência usada até ao osso. Ana afastou a cadeira e levantou-se devagar, sentindo subir-lhe no peito uma onda antiga, acumulada durante anos. João olhou-a, surpreendido.
— Ana, onde vais?
Ela percorreu a mesa com os olhos: Maria e o seu riso insolente, Pedro satisfeito por ter apontado mais uma falha, Teresa com aquela expressão de censura permanente, como se o mundo inteiro lhe devesse desculpas.
— Sabem uma coisa? — disse Ana, num tom baixo, mas tão claro que ninguém teve de pedir que repetisse. — Chega. Acabou.
Caminhou até à entrada e abriu a porta de par em par.
— Não quero voltar a ver-vos pôr os pés nesta casa. Para mim, nem família são.
Aquele almoço, que devia ser uma celebração, transformara-se na gota de água que a nora já não conseguiu engolir. Pela primeira vez, obrigou-se a escolher o respeito por si mesma.
Na sala caiu um silêncio pesado, quase físico. Foi Maria quem primeiro recuperou a fala.
— Ana, tu perdeste o juízo? Somos da família!
— Família? — Ana soltou uma gargalhada curta, sem alegria nenhuma. — Família é outra coisa. Família respeita, ajuda, tem cuidado com as palavras. Vocês vêm há anos à minha casa, comem à minha mesa, desfazem de tudo o que faço e ainda acham que isso é normal.
João levantou-se também, atrapalhado, sem saber para onde olhar.
— Ana, acalma-te. Eles não dizem por mal…
— Não dizem por mal? — Ela virou-se para o marido, e João viu nos olhos dela algo que nunca se obrigara a enxergar: cansaço, mágoa e uma decisão já tomada. — João, se disseres mais uma palavra para os defender, sais daqui com eles. Esta casa também é minha, e eu não aceito mais ser tratada assim dentro dela.
Ele abriu a boca, mas o olhar dela travou-o. Lentamente, fechou-a.
Teresa ergueu a voz, indignada.
— Mas quem pensas tu que és? Nós somos mais velhos, temos experiência! Esta juventude perdeu completamente a vergonha!
— Rua — disse Ana, sem se afastar da porta aberta. — Agora. Saiam imediatamente da minha casa.
Maria levantou-se, ofegante de raiva.
— João, tu não vais permitir que ela nos ponha na rua.
