— O João não vai autorizar nem impedir coisa nenhuma — cortou Ana, antes que Maria acabasse a frase. — Porque esta decisão não é dele. A casa é minha também, a paciência era minha, e essa acabou.
Os familiares começaram a juntar as suas coisas a contragosto. Pedro resmungava qualquer coisa sobre “raparigas novas sem juízo”, Teresa abanava a cabeça com ar ofendido, e Maria, já a caminho da saída, ainda tentava dizer ao irmão mais alguma coisa. João, porém, não respondeu. Ficou calado, com os olhos presos na mulher.
Quando a porta se fechou atrás deles, caiu sobre o apartamento um silêncio quase estranho. Ana encostou-se à madeira, de costas, e fechou os olhos por alguns segundos.
— Ana… — começou João, num tom hesitante.
— Não. Agora vais ouvir-me tu — disse ela, abrindo os olhos e encarando-o de frente. — Durante cinco anos engoli a falta de educação deles. Cinco anos a ouvir que sou uma má esposa, uma dona de casa incompetente, uma cozinheira sem jeito. Cinco anos a vê-los mexer nos nossos armários, comentar os nossos móveis, criticar a nossa casa e até a minha aparência.
João deu um passo na direção dela, inseguro.
— Eles não queriam magoar-te. São assim, têm aquele feitio…
— Eles têm o feitio deles, e eu tenho os meus limites — respondeu Ana, com uma firmeza que não deixou espaço para desculpas. — E, se queres que este casamento continue, vais ter de aprender a respeitá-los.
Passou por ele e entrou na sala. Começou a levantar a mesa, embora as mãos lhe tremessem da tensão acumulada. Ainda assim, por dentro, sentia um alívio inesperado, como se finalmente tivesse largado um peso enorme que carregava havia demasiado tempo.
— Eu não te proíbo de estares com eles — continuou, empilhando pratos com cuidado. — Encontra-te com a tua família onde quiseres, todos os dias se for preciso. Mas aqui dentro ninguém volta a mandar em mim, nem a dizer-me como devo viver, o que devo cozinhar ou de que maneira me devo apresentar.
João ajudou-a em silêncio. Por duas ou três vezes pareceu querer falar, mas acabava sempre por se calar. Por fim, parou no meio da cozinha, com uma pilha de pratos nas mãos.
— Ana, eu… eu não tinha percebido que isto te pesava assim tanto.
Ela levantou o olhar para ele.
— Tinhas percebido. Só era mais cómodo fingires que estava tudo bem do que enfrentares o desagrado deles.
João pousou os pratos na mesa e aproximou-se.
— Desculpa. A sério. Eu achava que tu simplesmente não gostavas da confusão, do barulho, destas visitas todas. Não pensei que o problema fosse a falta de respeito.
Ana parou, pegou num pano e limpou as mãos devagar.
— João, eu não vou tentar ser a esposa perfeita segundo os critérios deles. E também não vou continuar a aguentar insultos calada dentro da minha própria casa. Se não conseguem tratar-me como uma pessoa, então não entram aqui.
— E se eles… se deixarem de querer falar comigo? — perguntou ele, com uma incerteza quase infantil.
Ana encolheu ligeiramente os ombros.
— Então será uma escolha deles. A tua escolha é entre continuares a permitir isto ou ficares do meu lado.
Ficaram ambos parados na cozinha, rodeados pelos pratos quase intocados da mesa festiva. E João compreendeu, enfim, que havia ali uma decisão verdadeira a tomar. Não era uma escolha entre a família e a mulher. Era entre o velho hábito de fugir aos conflitos e a coragem de defender quem dizia amar.
— Está bem — disse ele, por fim. — Eu vou falar com eles.
— Não basta falar — corrigiu Ana, sem desviar os olhos. — Tens é de lhes explicar.
