Deu dois passos para dentro e estacou ao ver a expressão das duas mulheres. O ar estava tão pesado que até ele pareceu hesitar antes de falar.
— Que se passa aqui? — perguntou, com cautela.
Dona Maria levou logo a mão ao peito, como se tivesse sido atacada por uma dor súbita.
— A tua mulher quer pôr-me na rua — lamentou-se, numa voz frágil e chorosa. — Não quer ajudar uma velha doente.
Ana ficou sem reação por um instante. Em segundos, aquela mulher, que ainda há pouco remexia nas gavetas como dona da casa, transformara-se numa vítima indefesa.
— João, ela instalou-se aqui sem me pedir autorização! — disse Ana, sem conseguir conter a revolta.
Ele desviou os olhos.
— A minha mãe está doente. Precisa de apoio.
— Doente? — Ana olhou para a sogra, que momentos antes dobrava roupa com uma energia nada compatível com tamanha fraqueza. — Parece-me bastante bem.
— A mãe tem problemas de coração — insistiu João, numa teimosia pouco convincente. — O médico disse que ela não devia ficar sozinha.
Nesse momento, Ana percebeu. Ele estava a mentir. Dona Maria nunca se queixara do coração. Pelo contrário, gabava-se frequentemente da sua saúde de ferro e da vitalidade que ainda tinha.
— Chega de mentiras! — explodiu Ana. — Ela não tem doença nenhuma!
— Ana, acalma-te — tentou João, num tom que apenas a irritou mais. — Estás a ser demasiado dura.
— Dura? — repetiu ela, virando-se devagar para o marido. — Eu é que estou a ser dura?
A última réstia de paciência desapareceu. Ana viu, com uma clareza dolorosa, até onde chegava a traição. João já tinha escolhido havia muito tempo; agora apenas deixava de disfarçar. Estava do lado da mãe, mesmo contra a própria mulher.
A voz dela saiu firme, fria, quase metálica:
— João, acabou. Vais escolher. Ou a tua mãe sai desta casa, ou saem os dois.
Um silêncio espesso caiu sobre a sala. Dona Maria ficou paralisada, com uma peça de roupa suspensa entre as mãos. João encarou Ana como se não a reconhecesse.
— Não podes exigir-me isso — murmurou.
— Posso. Esta é a minha casa — respondeu ela, sem baixar os olhos. — Escolhe. A tua mãe ou a tua mulher.
João inclinou a cabeça. Durante alguns segundos, ninguém se mexeu. O relógio parecia ter parado. Depois, ele ergueu o rosto e olhou para Dona Maria.
— Mãe, junta as tuas coisas — disse, quase num sussurro.
A sogra soltou um som indignado, entre o choque e a fúria. Ana respirou fundo, sentindo um alívio breve atravessar-lhe o peito.
Mas durou pouco.
— Eu também vou — acrescentou João, de repente. — Não posso deixá-la sozinha.
Aquelas palavras caíram como uma sentença definitiva. Ana compreendeu tudo. O marido fizera a escolha. E não fora por ela.
Uma hora depois, o apartamento estava vazio. Ana permaneceu no centro da sala, a observar o caos deixado para trás. Objetos fora do lugar. Gavetas entreabertas. Almofadas atiradas sem cuidado. Móveis deslocados como se alguém tivesse tentado apagar a ordem que antes existia ali.
As lágrimas começaram a descer-lhe pelo rosto. Não eram exatamente de tristeza. Eram de espanto. De incredulidade perante a facilidade com que algumas pessoas podiam ser egoístas, descaradas e ingratas.
Ao fim de algum tempo, aproximou-se do sofá. Empurrou-o devagar até ao sítio de sempre. Depois endireitou o cadeirão. Em seguida, levou a mesinha junto da janela para o lugar certo.
Pouco a pouco, a casa foi recuperando a forma. E, com ela, regressou também uma calma que Ana julgara perdida. O apartamento deixava de ser campo de batalha e voltava a ser refúgio.
Sentou-se no seu cadeirão preferido e percorreu a sala com o olhar. Tudo estava onde devia estar. Cada objeto parecia respirar de novo no seu próprio lugar. O silêncio, antes ameaçador, tornara-se limpo, quase curativo.
A casa era novamente dela.
Só dela.
