A ousadia da sogra passara todos os limites que Ana julgava possíveis.
— Não vou para a sua casa de férias — declarou, com a voz firme.
Dona Maria franziu o sobrolho, incrédula.
— Como assim, não vais? Eu já organizei tudo.
— Então organize sem mim — cortou Ana. — Eu tenho o meu trabalho.
— Trabalho, trabalho… — desdenhou a sogra, abanando a mão. — Uma mulher nova, quando casa, tem de saber ajudar a família.
Ana levantou-se do sofá. A paciência, que durante anos engolira humilhações, intromissões e ordens disfarçadas de conselhos, chegara ao fim.
— Dona Maria — disse devagar, escolhendo cada palavra —, peço-lhe que saia da minha casa.
A mulher ficou imóvel por um instante.
— O que é que disseste?
— Saia — repetiu Ana, caminhando até à porta. — Agora.
Dona Maria ergueu-se lentamente. Nos olhos, brilhava uma fúria fria.
— Vais arrepender-te disto — murmurou, entre dentes, antes de se dirigir à saída.
Ana fechou a porta atrás dela e ficou encostada à madeira, a tentar respirar. As mãos tremiam-lhe de nervos, mas, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que tinha defendido o pouco espaço que ainda lhe pertencia.
João chegou tarde. A mãe já lhe tinha contado a sua versão dos acontecimentos, cuidadosamente retocada a seu favor. Assim que entrou, veio lançado, vermelho de indignação.
— Como é que tiveste coragem de pôr a minha mãe na rua?! — gritou.
— Ela passou dos limites — respondeu Ana, esforçando-se por manter a calma.
— A minha mãe só queria ajuda!
— A tua mãe queria transformar-me numa criada.
Pela primeira vez, João colocou-se abertamente contra a mulher. As palavras dele foram duras, sem piedade. E, nesse momento, Ana compreendeu de forma definitiva que estava sozinha contra os dois.
Uma semana depois, ao regressar do trabalho, parou logo no corredor de entrada. Havia luz acesa no outro quarto. Ouviam-se passos, gavetas a abrir, cabides a bater uns nos outros.
Dona Maria estava junto ao armário, a pendurar roupa sua como se sempre tivesse vivido ali. No canto, uma mala grande confirmava que aquilo não era uma visita passageira.
— O que se passa aqui? — perguntou Ana.
— Vou ficar a morar convosco — respondeu a sogra, com uma serenidade irritante. — O João concordou.
Ana percebeu de imediato: era vingança pela recusa, pela afronta de a ter mandado embora. A falta de vergonha daquela mulher parecia não conhecer fronteiras.
— Dona Maria, saia já da minha casa.
A sogra continuou a pendurar as peças, uma a uma. Os gestos eram lentos de propósito, provocadores, quase triunfantes.
— Esta casa também passa a ser minha — disse, sem se alterar. — O João deu autorização.
Ana sentiu o sangue a bater-lhe nas têmporas. Fechou as mãos em punho, tentando segurar a raiva. Aquela mulher tinha-lhe tornado a vida num inferno e agora pretendia ocupar, de vez, o seu próprio lar.
— A senhora não tem direito nenhum de morar aqui! — explodiu Ana. — Esta casa é minha!
Dona Maria virou-se finalmente para ela, com um sorriso seco.
— Agora é da família. E a família deve amparar os mais velhos.
Falava como uma professora a explicar uma lição a uma criança pouco inteligente. Cada frase vinha carregada de superioridade.
Nesse instante, a porta de entrada bateu com força. João entrou.
