Mas as palavras ficaram-lhe presas antes de chegarem à boca.
Passados alguns dias, acabou o papel higiénico em casa. Miguel procurou nos sítios de sempre: na despensa, no armário por baixo do lava-loiça, na prateleira estreita do corredor. Nada. Nem um único rolo esquecido no fundo.
Foi então bater à porta do quarto de Ana.
— Ana, não há papel em lado nenhum.
Ela levantou-se sem comentar, abriu o próprio armário, retirou de lá uma embalagem ainda quase cheia e entregou-lhe apenas um rolo.
— Toma.
Miguel ficou a olhar primeiro para o rolo que tinha na mão, depois para o pacote que continuava dentro do armário.
— E o resto?
— O resto comprei para mim.
Ele não respondeu. Limitou-se a apertar o rolo com mais força do que seria necessário. E, nesse instante, qualquer coisa dentro dele se deslocou em silêncio. Pela primeira vez em muitos anos, ocorreu-lhe com nitidez que uma casa não se mantinha sozinha: havia dezenas de pequenas coisas que apareciam sempre no sítio certo, na hora certa, como por magia — mas que, afinal, existiam porque alguém as previa, comprava, repunha, limpava, organizava.
Na sexta-feira, Miguel chegou mais cedo do trabalho. Pelo caminho, parou numa florista e escolheu peónias, as mesmas que Ana, tempos antes, dissera serem as suas preferidas. Comprou também o bolo de que ela mais gostava.
Quando Ana saiu do quarto, as flores já estavam dentro de uma jarra, sobre a mesa.
— Podemos conversar? — perguntou ele, com cuidado.
— Podemos — respondeu ela, sem se apressar a sentar-se.
Miguel respirou fundo.
— Ouve… se te sentes melhor com o dinheiro separado, fica assim. Mas gostava que, em casa, voltássemos ao que era antes. Sem esta espécie de contabilidade por causa de cada coisinha.
Ana observou-o demoradamente, como se quisesse ter a certeza de que tinha ouvido bem.
— Portanto, queres que eu volte a tratar de tudo outra vez, mas sem qualquer acordo? De graça, porque sempre foi assim?
Ele encolheu os ombros, embaraçado.
— Somos uma família…
Ana sorriu com tristeza. Não era um sorriso de ataque; era cansaço antigo a vir ao de cima.
— Uma família não se desfaz por ter contas separadas, Miguel. Começa a partir-se quando uma pessoa só quer dividir o dinheiro, mas continua a achar que o trabalho da outra aparece feito por obrigação.
Depois daquela conversa, Miguel sentou-se pela primeira vez para fazer contas a sério. Não por alto, não de memória: foi buscar talões, extratos, pagamentos. A comida encomendada durante um mês tinha levado quase o mesmo que antes chegava para encher a despensa. A lavandaria, onde agora deixava as camisas, saía muito mais cara do que imaginara. E a chamada do técnico — porque ninguém trocara o filtro a tempo e a torneira começara a pingar — quase igualava o valor das contas da casa. Por fim, pegou numa folha em branco.
