— A tua mulher não se esmera muito em agradar às visitas; devias educá-la melhor — indignou-se o irmão do marido, mas a dona da casa não tardou a pô-lo no devido lugar.
Ana ficou a olhar para o calendário preso no frigorífico, contando mentalmente os dias. Sexta-feira. Portanto, chegariam no dia seguinte. Sempre assim, como se obedecessem a um horário amaldiçoado: de dois em dois meses, sem falhar. Já conseguia imaginá-los a invadir o pequeno T2 — Vasco, a sua Sofia e os dois filhos — ocupando cada canto como se a casa lhes pertencesse.
— Querida, não te esqueceste de que o Vasco vem amanhã, pois não? — perguntou Paulo da sala, sem tirar os olhos do telejornal.
Esquecer? Como poderia esquecer aquilo que a atormentava havia três anos?
— Lembro-me — respondeu Ana, seca, enquanto retirava carne do frigorífico. Era preciso preparar-se para o cerco.

Vasco era cinco anos mais velho do que Paulo e, na cabeça dele, essa diferença bastava para lhe dar autoridade absoluta para ensinar o irmão mais novo a viver. Depois de abrir uma pequena empresa de construção numa localidade perto de Bragança, a confiança dele disparara. Gostava de se apresentar como empresário de sucesso, dono de três retroescavadoras e de uma equipa de oito homens.
Na prática, Ana sabia que os negócios não corriam tão bem como ele apregoava. Ainda assim, Vasco insistia em representar o papel de grande homem de negócios.
Paulo, por sua vez, trabalhava como engenheiro num gabinete de projetos. Tinha um ordenado estável, mas, aos olhos do irmão, aquilo não passava de “vegetar num escritório do Estado”. O facto de Paulo desenhar pontes e estradas, e de nenhuma obra séria avançar sem profissionais como ele, não impressionava Vasco minimamente.
No dia seguinte, exatamente às duas da tarde, a campainha tocou. Ana lançou um olhar ao espelho: T-shirt de andar por casa, calças de ganga, cabelo preso num coque descuidado. Queria parecer tudo menos uma anfitriã entusiasmada.
— Olá, Ana! — Vasco entrou no corredor como uma rajada de vento. Atrás dele vinham Sofia e as crianças: David, de dez anos, e Cristina, de oito. — Então, como é que vai essa vida?
Ana colou ao rosto um sorriso forçado.
— Boa tarde. Entrem.
Vasco examinou o hall com um ar crítico.
— A mesma decoração de sempre. Estou farto de dizer que já era tempo de mudarem qualquer coisa. Até o papel de parede se nota que está gasto.
Paulo abraçou o irmão.
— Vasco! Como estás? E a empresa, vai bem?
— Tudo em ordem, mano. Estamos a crescer devagarinho. Ando a pensar contratar mais uma equipa. Trabalho não falta, quase não damos conta.
Enquanto isso, Sofia percorria a casa com olhos avaliadores.
— Ana, ainda não trocaram o sofá? Está assim… pouco apresentável.
As crianças espalharam-se logo pelo apartamento, aumentaram o volume da televisão e começaram a investigar o conteúdo do frigorífico.
— David, não mexas no frigorífico dos outros — tentou Sofia repreender o filho, sem grande convicção.
— Deixa lá o rapaz, que tire o que quiser — atalhou Vasco, com um gesto displicente. — Estamos em família, não estamos na casa de estranhos.
Ana apertou os maxilares. Em família, pois claro. Só que ela, por mais que tentasse, não se sentia parte daquela família.
