“A tua mulher não se esmera muito em agradar às visitas; devias educá-la melhor” indignou-se o irmão do marido, mas a dona da casa não tardou a pô-lo no devido lugar

Histórias
Cada visita era uma invasão injusta e humilhante.

Parte dela? Não. O que Ana sentia era outra coisa, bem mais amarga: parecia-lhe ocupar ali o lugar de criada.

Às seis da tarde, a mesa já estava posta. Passara o dia inteiro entre tachos, facas e vapor: fizera uma sopa substancial, uma salada de carne e, para prato principal, um estufado. A carne cozinhara lentamente durante três horas, até ficar macia, escura de molho e perfumada.

— Vamos sentar-nos? — sugeriu Paulo, tentando dar à cena um ar normal.

Vasco instalou-se logo no lugar de honra, com a naturalidade de quem entra na própria casa.

— Ora bem, que fartura! Ana, passaste o dia todo na cozinha?

— Quase — respondeu ela, sem calor.

— Podias ter feito qualquer coisa mais simples. Nós não somos esquisitos.

Não eram esquisitos. Ana recordou-se, com uma clareza desagradável, da última visita, quando Vasco passara meia hora a explicar que a salada precisava de mais sal e que os rissóis estavam secos demais.

Os primeiros pratos ainda foram comidos sem grandes acidentes. Vasco, é verdade, conseguiu observar que a sopa estava “um bocadinho pobre” e que a salada lhe parecia “seca”, mas limpou o prato até ao fim, sem deixar grande prova das críticas.

Quando Ana trouxe o prato principal, ele espetou um pedaço de carne com o garfo, levou-o à boca e mastigou durante demasiado tempo, franzindo a testa como se estivesse a avaliar uma peça defeituosa.

— Hm… — arrastou, por fim. — A carne ficou um nadinha dura.

— A mim parece-me ótima — interveio Paulo.

— Ó Paulo, tu não percebes nada disto. Lá em casa, a Sofia faz um estufado que é de lamber os dedos. Aprendeu aquilo como deve ser, não foi, Sofia? Agora isto… — tocou na carne com a ponta do garfo, num gesto de desprezo. — Ana, não tens outra coisa para trazer? Isto não há quem coma.

Dentro dela, qualquer coisa se contraiu.

— Fiz apenas este prato quente.

— Apenas este? — indignou-se Vasco. — E se os convidados não gostarem?

— Então comem batatas com salada — disse Ana, esforçando-se por manter a voz firme.

Vasco recostou-se na cadeira, ofendido, como se ela o tivesse insultado diante de uma plateia.

— Estás a ouvir, Paulo? A tua mulher não parece muito preocupada em agradar às visitas. Devias educá-la melhor.

Foi aí que a paciência de Ana se partiu. Não houve grito, nem aviso. Apenas se juntaram, de uma vez, todas as pequenas humilhações: os reparos, os sorrisos superiores, aquele modo paternalista de entrar, mandar, julgar e ocupar espaço. Tudo aquilo ardeu nela como álcool lançado ao lume.

Levantou-se devagar. Pegou no seu prato, ainda com estufado. Vasco continuava a discursar sobre boas maneiras e respeito pelos convidados quando Ana se aproximou dele e, sem pressa, virou-lhe o conteúdo sobre o colo.

A carne quente, mergulhada em molho, espalhou-se pelas calças claras de Vasco. Ele saltou da cadeira, de olhos arregalados, olhando para si próprio sem acreditar.

— Enlouqueceste? Que raio estás a fazer?!

— Vasco! — gritou Sofia, correndo para o marido. — Queimaste-te? Meu Deus, isto é horrível!

As crianças ficaram imóveis, de boca aberta. Paulo permanecia sentado, como se não conseguisse acreditar no que acabara de ver.

Ana pousou o prato vazio sobre a mesa com uma calma assustadora.

— Agora escutem-me bem. Se não saírem imediatamente do meu apartamento, vou buscar a panela inteira e despejo-a em cima do vosso querido Vasco.

— Como te atreves?! — berrou ele, sacudindo pedaços de carne das calças. — Isto não é o teu apartamento! É o apartamento do meu irmão!

— Exatamente. Do teu irmão. Não teu. — Ana agarrou num pano de cozinha.

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