“A tua mulher não se esmera muito em agradar às visitas; devias educá-la melhor” indignou-se o irmão do marido, mas a dona da casa não tardou a pô-lo no devido lugar

Histórias
Cada visita era uma invasão injusta e humilhante.

Torcendo-o até formar uma espécie de corda, apontou para o corredor.

— Para a entrada. Já. Sem mais uma palavra.

Vasco ainda tentou endireitar os ombros e recuperar aquele ar de superioridade que usava como armadura.

— Mas quem é que tu pensas que és para…

Ana deu um passo na direção dele e fez estalar o pano no ar. Vasco recuou de imediato, quase tropeçando.

— Paulo! E tu vais ficar aí calado?!

— Sinceramente, Vasco, acho melhor obedeceres à minha mulher — respondeu Paulo, em voz baixa, com um brilho divertido nos olhos. — Àquela que, segundo tu, eu educo tão mal.

— Casacos. Sapatos. Depressa — ordenou Ana, sem baixar o pano.

Sofia, pálida e atrapalhada, começou a juntar as crianças à pressa.

— David, Cristina, venham, venham já. Mexam-se.

— Mas nós só temos bilhetes para amanhã! — protestou Vasco, procurando ainda agarrar-se a algum argumento.

— Problema vosso. Procurem um hotel.

Ana foi conduzindo todos para a porta com uma determinação fria, sem desviar o olhar de Vasco por um segundo. Ele resmungava qualquer coisa sobre ingratidão, falta de respeito e gente que se esquecia da família, mas, sob o olhar furioso da dona da casa, acabou por apanhar as suas coisas sem mais resistência.

Já no patamar, ainda tentou deixar uma ameaça no ar:

— Isto não fica assim!

— Para mim, acabou agora — respondeu Ana.

E fechou a porta com força.

Durante alguns instantes, o apartamento pareceu suspenso num silêncio absoluto. Paulo continuava sentado à mesa, a olhar para a mulher como se a visse pela primeira vez.

— Meu Deus, Ana… Eu não fazia ideia de que tu eras assim.

— Assim como?

— Forte. Corajosa. — Levantou-se, aproximou-se dela e envolveu-a nos braços. — Devia ter posto aquele bruto no lugar dele há muito tempo.

Ana deixou-se encostar ao peito do marido, sentindo finalmente a tensão abandonar-lhe os ombros.

— Desculpa. Perdi completamente a cabeça. Mas eu já não aguentava mais.

— Não peças desculpa. Quem devia ter travado isto era eu. Só que eu pensava sempre: é família, é o meu irmão… E ele, no fundo, nunca teve o mínimo respeito por nós.

— Agora talvez aprenda — murmurou Ana, com um sorriso cansado.

Acabaram o jantar como puderam, arrumaram a mesa e lavaram a loiça em silêncio. Pela primeira vez em muito tempo, a noite passou serena. Ana não se encolheu a cada ruído, não ficou à espera da próxima piada cruel, nem do próximo comentário venenoso lançado por cima do prato.

No dia seguinte, Paulo contou o sucedido aos colegas. Para sua surpresa, ninguém censurou Ana; pelo contrário, todos ficaram do lado dela.

— A tua mulher fez muito bem! — riu-se o chefe. — Gente autoritária só entende esse tipo de linguagem.

Passou-se um mês. Na véspera do aniversário de Paulo, o telefone tocou. No ecrã surgiu o número de Vasco.

— Paulo?

— Sim, Vasco.

— Olha… queria pedir desculpa. Pelo meu comportamento naquela noite. Eu estive mal.

Paulo ficou calado por um segundo, desconcertado.

— Estás a falar a sério?

— Estou. A Sofia passou a viagem toda a martelar-me a cabeça. Disse que eu me comportei como um animal. Depois a nossa mãe soube da história e deu-me uma descompostura daquelas… — Vasco fez uma pausa. — Eu não queria magoar-vos. Habituei-me a ser o mais velho e a achar que podia mandar.

— Isso não te dá o direito de humilhar a Ana.

— Agora percebo. Diz-lhe que lhe peço desculpa. E… será que podemos ir ao teu aniversário? Prometo que me porto como deve ser.

Paulo olhou para Ana, que estava na cozinha, junto ao fogão.

— Ana, o Vasco está a pedir desculpa. Quer saber se podem vir ao meu aniversário.

Ela voltou-se devagar, limpando as mãos ao pano da cozinha.

— Se ele garantir que se comporta como uma pessoa civilizada, podem vir. Mas, ao primeiro comentário ofensivo, mando-os embora para sempre.

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