“Acabou-se a cantina grátis!” bloqueei os cartões e mandei o marido ir trabalhar

Histórias
É humilhante viver com tanto egoísmo cotidiano.

— Acabou-se a cantina grátis! — bloqueei os cartões e, pela primeira vez, o meu marido de quarenta e dois anos ouviu-me dizer: vai trabalhar e arranja dinheiro por ti próprio.

Ana não despertou com o toque do alarme. Acordou porque o quarto parecia um forno, abafado como um autocarro cheio em hora de ponta, daqueles em que o motorista se esquece do ar condicionado e os passageiros acham que abrir uma janela é uma ameaça à saúde pública.

Ficou a olhar para o teto por instinto. No canto, uma aranha permanecia imóvel, aparentemente o único ser vivo daquela casa que não se queixava do calor.

“Talvez também esteja a sofrer, só que em silêncio. Ao contrário dos meus parentes”, pensou Ana, com amargura, virando-se para o outro lado.

Da cozinha já vinha o tilintar da loiça. Isso queria dizer que Maria se tinha levantado. Ana conhecia aquele ritual de cor: a sogra acordava às sete em ponto e começava logo a fazer barulho, como se estivesse em competição direta com as obras da rua.

— Aninha, levanta-te, já são sete e meia! — anunciou ela, da cozinha, num tom alegre demais para aquela hora, quase provocador. — És a única pessoa desta casa que trabalha, não te podes atrasar!

— Obrigada pelo aviso — resmungou Ana, sentando-se na cama. — Sem vocês, eu nunca teria percebido.

No corredor, encontrou João. Estava sentado só de cuecas, telemóvel na mão, a deslizar o dedo pelo ecrã com uma concentração solene, como se estivesse a decidir o futuro do país. Na verdade, como Ana sabia muito bem, calculava qual jogador “ia render” nas apostas daquele dia.

— João, ao menos podias vestir-te — disse ela, passando por ele.

— Para quê? — respondeu, sem desviar os olhos do telemóvel. — Estou em casa. Aqui há liberdade.

— Pois. Liberdade com ambiente de mata-moscas — atirou Ana.

João nem levantou a cabeça. Toda a sua capacidade mental parecia presa às probabilidades do Setúbal.

Assim que entrou na cozinha, Ana foi atingida pelo cheiro a papa queimada. Maria estava junto ao fogão, de robe, mexendo qualquer coisa dentro de uma panela com a expressão de quem acabara de salvar a humanidade.

— Fiz-te papas — declarou, orgulhosa. — Precisas de forças. Afinal, esta casa inteira está às tuas costas.

— Obrigada — disse Ana, servindo-se de café —, mas de manhã costumo comer iogurte.

— Iogurte? Isso lá é comida! — indignou-se a sogra. — Papas é que sustentam uma pessoa. Não foi por acaso que alimentei crianças na escola durante a vida toda.

Ana levou a chávena aos lábios e engoliu, junto com o café, a resposta sarcástica que lhe veio à cabeça.

“Pois, Maria, deve ter sido por isso que os miúdos corriam para o bar nos intervalos à procura de pães com fiambre. Papas são papas, mas qualquer pessoa precisa de comida a sério.”

— Mãe, podes carregar-me o telemóvel? — gritou João do quarto. — Estou sem saldo, já fiquei no negativo.

Ana quase se engasgou.

— João, és um homem adulto. Tens quarenta e dois anos. Tens duas mãos e até um curso de engenharia. É assim tão difícil carregares o teu próprio telemóvel?

Ele apareceu à porta da cozinha, coçando a barriga com uma naturalidade irritante.

— Eu carregava com todo o gosto, mas o meu cartão está vazio. E tu és a nossa diretora financeira, para ti é mais simples.

— Diretora financeira? — Ana soltou um sorriso seco. — Curioso. Eu pensava que era tua mulher.

— Também és — confirmou João, muito sério. — Duas funções numa só, digamos.

Nesse instante, Maria achou oportuno tomar partido pelo filho.

— Aninha, por que estás a fazer disso um drama? Tu recebes. Somos família. A família não serve precisamente para partilhar?

— Interessante — Ana bebeu mais um gole de café e olhou de lado para a sogra. — Por alguma razão, nesta família, sou sempre eu que partilho. Os outros limitam-se a tirar.

A cozinha caiu num silêncio pesado. Até as papas, por respeito ou medo, pareceram deixar de borbulhar.

— Lá estás tu outra vez — disse Maria, franzindo o sobrolho. — Nunca gostei dessa tua mesquinhez.

— Não é mesquinhez. É o mínimo sentido de justiça — respondeu Ana. — Eu não sou uma caixa multibanco.

— Pronto, começou — suspirou João. — Ainda mal acordámos e já estás a acusar toda a gente. Não percebes que isso é nervosismo? Devias levar a vida com mais leveza.

— Com mais leveza? — Ana sentiu a irritação subir-lhe pelo peito, quente e sufocante como o ar do quarto. — Tu estás em casa há dois anos a “levar a vida com leveza”. E a tua mãe também se habituou demasiado bem a essa leveza.

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