“Acabou-se a cantina grátis!” bloqueei os cartões e mandei o marido ir trabalhar

Histórias
É humilhante viver com tanto egoísmo cotidiano.

a gastar o meu ordenado como se fosse vosso, até ajudas parentes à minha custa, e eu fico com as contas todas para pagar e ainda tenho de me calar?

— Estás a dramatizar — disse João, com uma calma que a irritou ainda mais, enquanto estendia outra vez a mão para o telemóvel. — Tudo se resolve.

— Claro que se resolve — Ana assentiu devagar. — Curiosamente, sou sempre eu quem acaba a resolver.

Pousou a chávena no lava-loiça com força. O estalido ecoou na cozinha apertada como se alguma coisa se tivesse partido dentro dela.

— Ana, querida — tentou Maria, numa voz adoçada, a querer apagar o incêndio. — Somos uma família. Há fases difíceis, mas isto há de compor-se.

— Quando? — Ana ergueu os olhos para ela. — Quando eu tiver sessenta anos e continuar a trabalhar depois da reforma para vocês continuarem sentados no sofá?

Desta vez, ninguém teve resposta.

Ana soltou um suspiro comprido. Um pensamento atravessou-lhe a cabeça, frio e nítido:

“Talvez a culpa seja minha. Fui eu que os habituei. Primeiro foi só uma ajuda, depois outra, depois mais uma… e agora sustento dois adultos perfeitamente capazes, que acham isto a coisa mais normal do mundo.”

O telemóvel vibrou em cima da mesa. Era o aviso da prestação do crédito da casa. Ana olhou para o ecrã e sentiu o estômago encolher.

— Já agora — lembrou-se, com a voz subitamente mais baixa —, quem é que ontem levantou quinhentos euros do meu cartão?

João franziu a testa, surpreendido.

— Eu não fui. Nem sequer tenho acesso — respondeu.

Maria tossiu de leve e baixou os olhos para o prato, como se de repente a louça fosse interessantíssima.

— Maria? — A voz de Ana saiu gelada.

— Bem… sabes como é… a minha sobrinha meteu-se em sarilhos. Ficou com dívidas. E nós somos família, temos de ajudar.

— A tua sobrinha? — Ana quase gritou, mas engoliu o impulso no último segundo. — Eu tenho um crédito para pagar, contas da casa, despesas todos os meses. Nem sequer me perguntaste!

— Ana — disse a sogra, macia, quase melosa —, não estás a ver bem a situação. É só por algum tempo. Depois devolvemos.

— Devolvem? Vocês? — Ana soltou uma gargalhada curta, tão amarga que lhe trouxe lágrimas aos olhos. — Os dois? Um vive de apostas, a outra distribui o dinheiro dos outros para resolver problemas alheios. São vocês que me vão devolver?

— Ficaste uma pessoa dura — murmurou João, abanando a cabeça. — Antes não eras assim.

— Era, João. Sempre fui assim. A diferença é que antes eu ficava calada.

Olhou para os dois, um de cada vez, e naquele instante percebeu com uma clareza brutal que o limite já tinha sido ultrapassado. Não havia mais desculpas, nem mais adiamentos.

— Acabou. A torneira fechou — declarou Ana, tirando o cartão da mala. — Hoje mesmo cancelo todos os acessos e ponho o dinheiro onde vocês não lhe possam tocar. A partir de agora, cada um vive do que é seu.

João ficou de boca entreaberta, como se tivesse uma resposta pronta, mas nenhuma palavra lhe saiu. Maria juntou as mãos num gesto teatral.

— Ana! Perdeste o juízo? Somos uma família!

— Exatamente — respondeu ela, fria. — Família é apoio. Isto, aqui, virou parasitismo.

Virou-lhes as costas e saiu da cozinha, deixando-os mergulhados num silêncio tão espesso que parecia ocupar todo o espaço.

“Pronto. Disse. Disse mesmo. Agora vamos ver o que acontece.”

Depois daquela declaração, a casa ficou suspensa numa quietude pesada, desconfortável, como um candeeiro velho que toda a gente sabe que devia ser retirado, mas que ninguém tem coragem de tocar. Ana deitou-se no quarto e ficou longos minutos a olhar para o teto, à procura de uma resposta qualquer sobre o que viria a seguir. A resposta, claro, não apareceu.

A manhã começou com portas a bater. João arrastava os chinelos pelo corredor de propósito, fazendo questão de pisar mais forte do que o necessário. Ia à sala, voltava, remexia em sacos, abria gavetas, fechava-as de novo. Parecia uma alma penada com azia a vaguear pelo apartamento.

— Ana — disse por fim, incapaz de aguentar o silêncio. — Estavas a falar a sério ontem? Escondeste o dinheiro?

Ela estava a encher uma chávena de café.

— Não escondi. Coloquei-o num sítio onde vocês não conseguem mexer. Chama-se proteger.

— Isto é uma traição — João endireitou-se, assumindo finalmente o tom de ataque. — Depois de tudo, é assim que me tratas?

— Depois de tudo? — Ana ergueu uma sobrancelha. — Depois de dois anos a sustentar-te a ti e à tua mãe?

— Eu sou teu marido! — A voz dele subiu. — Tenho direitos!

— Tens — respondeu ela, sem se alterar. — Ao teu próprio salário.

Nesse preciso momento, Maria irrompeu na cozinha.

Casa da Encarnação