“Parece que se esqueceu de uma coisa: este apartamento está registado em meu nome” disse Ana, com calma cortante, confrontando Aurora e o agente imobiliário

Histórias
Uma invasão familiar vergonhosa e intolerável.

— Parece que se esqueceu de um pormenor: o apartamento está em meu nome. Quem lhe deu autorização para o pôr à venda? — A sogra, sem qualquer pudor, apareceu em minha casa acompanhada de um agente imobiliário.

A campainha tocou exatamente às dez da manhã.

Ana estava a terminar um relatório para o trabalho e não esperava visita nenhuma. Aproximou-se da porta, espreitou pelo óculo e franziu o sobrolho, sem esconder a surpresa.

No patamar estava a sogra.

Mas não vinha sozinha.

Ao lado dela encontrava-se um homem desconhecido, de fato escuro, segurando uma pasta cheia de documentos. Um pouco atrás, um casal jovem observava o prédio com aquela curiosidade típica de quem avalia uma possível compra.

Ana abriu a porta.

— Aurora?

A sogra nem se deu ao trabalho de cumprimentar.

— Até que enfim — soltou ela, como se estivesse à espera há horas. Depois fez um gesto largo com a mão para os outros. — Entrem, entrem. Vamos já mostrar tudo.

O homem da pasta avançou com segurança.

— Bom dia. Sou o agente imobiliário.

Durante alguns instantes, Ana ficou calada, tentando perceber se aquilo era uma brincadeira de mau gosto. Depois voltou lentamente o olhar para a sogra.

— Desculpe, mas o que é isto?

— Como assim, o que é? — respondeu Aurora, impaciente. — Estamos a mostrar o apartamento.

— A quem?

— Aos compradores, evidentemente.

O casal sorriu de forma embaraçada. Era visível que também não compreendiam por que motivo a suposta proprietária parecia tão apanhada de surpresa.

Ana respirou fundo, devagar, e falou num tom tão calmo que a tensão ficou ainda mais evidente:

— Parece que se esqueceu de uma coisa: este apartamento está registado em meu nome. Com que direito decidiu vendê-lo?

Fez-se um silêncio pesado.

O agente imobiliário olhou para Aurora, desconcertado.

Os potenciais compradores trocaram um olhar inquieto.

Já Aurora ergueu as mãos, indignada, como se a ofendida fosse ela.

— Pronto, lá começa!

— Começa o quê, exatamente?

— Uma discussão de família. Não nos envergonhes à frente de estranhos.

Ana quase se riu.

Se havia alguém prestes a envergonhar a família naquele momento, certamente não era ela.

A verdade era simples: o apartamento pertencia a Ana.

Por inteiro.

Ela comprara-o muito antes de conhecer o homem que viria a ser seu marido. Usara para isso o dinheiro recebido pela venda da casa da avó, juntamente com recursos próprios reunidos com esforço ao longo do tempo.

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