Toda a documentação estava em nome dela.
Cada certidão.
Cada contrato.
Cada comprovativo bancário.
Nada de quotas partilhadas.
Nada de direitos adquiridos pelo casamento.
Nada que pudesse abrir caminho a interpretações convenientes.
Para Aurora, porém, esses pormenores nunca tinham passado de obstáculos menores. Na cabeça dela, a partir do momento em que uma mulher se casava, tudo o que possuía passava, por uma espécie de magia doméstica, a ser património “da família”.
E, curiosamente, quando Aurora dizia “da família”, queria quase sempre dizer “do meu filho”.
O plano, descobriu Ana mais tarde, não nascera naquela manhã. Já vinha a ser cozinhado havia meses.
Bruno metera-se em apuros financeiros. Investimentos mal calculados. Empréstimos feitos com demasiada confiança. Dívidas que se acumulavam. Prestações em atraso. Contas que deixaram de fechar.
Em vez de se sentar com a mulher e admitir o que se passava, preferiu procurar conselhos junto da mãe.
Aurora, como era seu hábito, encontrou uma solução imediata, simples e brutal: vender o apartamento da nora, liquidar os buracos, e aplicar o que sobrasse num novo negócio para Bruno.
Aos olhos dela, era uma ideia brilhante.
Havia apenas um detalhe incómodo.
O apartamento não era dela.
Ana pediu aos compradores que aguardassem alguns minutos no patamar. Pediu desculpa, com uma calma que lhe custou mais do que aparentava, e fechou a porta.
Na entrada ficaram apenas os três: Ana, Aurora e o agente imobiliário.
O homem parecia cada vez mais arrependido de ter aceitado aquela visita. Tinha o ar de quem preferia estar em qualquer outro sítio, nem que fosse no meio de uma repartição cheia.
— Talvez agora me expliquem isto desde o princípio — disse Ana, num tom baixo e controlado.
Aurora endireitou os ombros, ofendida por lhe pedirem explicações.
— O Bruno está a par de tudo.
— Ótimo — respondeu Ana. — Então vamos confirmar.
Pegou no telefone e ligou ao marido.
Ele atendeu quase de imediato.
— Ana? Olá.
— A tua mãe está cá em casa com um agente imobiliário.
Do outro lado, instalou-se um silêncio.
Comprido demais.
Claro demais.
— Ah… ela foi aí?
— Foi. Para vender o meu apartamento.
Novo silêncio.
Foi nesse instante que Ana percebeu a parte mais amarga de tudo.
Ele sabia.
A dor não chegou de rompante. Primeiro veio a perplexidade. Depois, uma sensação fria de desapontamento. Só então a compreensão a atingiu por completo.
O homem em quem confiara durante mais de dez anos tinha falado da venda da casa dela pelas suas costas.
Sem lhe perguntar.
Sem a avisar.
Sem sequer lhe pedir opinião.
