Como se aquilo fosse apenas um móvel velho, encostado num canto, de que se podia dispor sem cerimónia.
E não a casa dela.
Ana não discutiu mais naquele momento. Levantou-se devagar e saiu da sala. Poucos minutos depois regressou do escritório com uma pasta volumosa nas mãos, uma daquelas pastas que sempre guardara à parte, longe de tudo o resto.
Pousou-a sobre a mesa, abriu-a com calma e começou a retirar os documentos, um a um.
— Aqui está a escritura. Aqui está o contrato de compra e venda. Aqui está a certidão do registo predial. E aqui está o comprovativo do pagamento.
Dispunha cada folha diante deles com uma precisão quase fria.
Depois ergueu os olhos para a sogra.
— Agora mostre-me um único documento que lhe dê o direito de vender este apartamento.
Aurora corou de imediato.
Em seguida, perdeu a cor.
E, passado um instante, voltou a ficar vermelha.
Mas documento algum apareceu.
Porque não havia nenhum.
Foi então que aconteceu algo que ninguém esperava.
O agente imobiliário pigarreou, visivelmente desconfortável.
— Desculpem…
As duas mulheres olharam para ele ao mesmo tempo.
— Se percebi bem, a proprietária nunca autorizou a venda, correto?
— Nunca — respondeu Ana, sem hesitar.
O homem fechou lentamente a pasta que trazia consigo.
— Nesse caso, não posso continuar envolvido neste negócio.
Aurora abriu os braços, indignada.
— Mas como se atreve?
— Com bastante facilidade — respondeu ele, já num tom profissional. — A lei não permite vender um imóvel que pertence a outra pessoa.
Nessa noite, Ana e Bruno tiveram a conversa mais séria de todo o casamento.
Pela primeira vez, ele falou das dívidas.
Das dificuldades.
Dos receios que o tinham esmagado em silêncio.
E dos erros que cometera enquanto tentava fingir que ainda controlava alguma coisa.
A realidade era pior do que Ana imaginara. Havia prestações atrasadas, promessas feitas a terceiros, dinheiro gasto para tapar buracos que apenas abriam outros maiores.
Mas o mais grave não estava nos números.
Estava na escolha que ele fizera.
Em vez de lhe pedir ajuda com honestidade, preferira procurar uma saída usando aquilo que era dela.
As semanas seguintes foram duras.
Ana saiu de casa durante algum tempo. Precisava de distância, de silêncio, de espaço para perceber o que ainda restava entre os dois.
Falou com uma advogada.
Com uma psicóloga.
Com pessoas próximas em quem confiava.
Porque o problema já não era apenas o apartamento.
Era a confiança.
Um mês depois, Bruno foi ter com ela.
Sozinho.
Sem a mãe.
Sem acusações.
Sem desculpas ensaiadas.
Sem exigências.
Parou à sua frente e disse apenas:
— Eu estive errado.
Ana não respondeu.
Ele baixou os olhos.
— Não foi por eu querer ficar com o teu apartamento. O problema era outro.
