“Agarraste-te ao meu filho como uma sanguessuga!” — Teresa lançou a acusação, e Ana exigiu que se resolvesse ali, à frente do João

Histórias
Essa acusação mesquinha é dolorosamente injusta.

A sogra gritava com Ana como se se tivesse esquecido de que vivia no apartamento da própria nora. Só que a surpresa já estava preparada.

— Outra vez colada a esse computador! Mulheres decentes saem de casa para trabalhar, não ficam sentadas a fingir que estão muito ocupadas. O João mata-se a trabalhar para te sustentar, e tu aí, a brincar!

Teresa atravessou a cozinha com tanta fúria que as portas dos armários chegaram a tremer. Ana nem sequer levantou os olhos do ecrã. Tinha de entregar o relatório trimestral até ao meio-dia, e a sogra já repetia, pela terceira vez naquela manhã, a mesma ladainha.

Dez meses daquele inferno. Havia dez meses que Ana ouvia que era uma parasita.

— Teresa, eu preciso de trabalhar.

— Trabalhar? — A sogra virou-se de repente, com as mãos fincadas na cintura. — Carregas em meia dúzia de teclas e chamas a isso trabalho? O meu João passa o dia inteiro a esforçar-se nas vendas, e tu fazes o quê? Deixas o tempo passar e pronto? Devias ter vergonha! Agarraste-te ao meu filho como uma sanguessuga!

Ana pousou a caneta sobre a mesa. Depois, com um gesto lento, fechou o portátil.

— Teresa, é mesmo isso que pensa?

— Claro que penso! Não sou cega. Vejo perfeitamente o que fazes durante o dia. Olhas pela janela, falas ao telefone… E o João a trabalhar pelos dois.

— Está bem. — Ana levantou-se. — Então falamos sobre isso hoje à noite. À frente do João. Já que a preocupa tanto saber quem vive à custa de quem.

Havia qualquer coisa no tom dela que calou Teresa por instantes. Mas o silêncio não durou muito.

João chegou a casa às seis e meia. As duas mulheres estavam sentadas à mesa da cozinha. Entre elas, havia uma pasta.

— O que se passa? — perguntou ele, entrando com cautela.

— Senta-te — disse Ana, indicando-lhe uma cadeira. — A tua mãe acha que eu vivo à tua custa. Diz que o meu trabalho não passa de uma brincadeira e que és tu quem sustenta esta casa sozinho. Estou a citar bem, Teresa?

A mulher confirmou com um aceno. Tinha o rosto rígido e os lábios apertados numa linha fina.

— Mãe, nós já…

— João, não me interrompas. — Ana abriu a pasta. — Eu concordo com a tua mãe numa coisa: quem vive à custa dos outros não deve permanecer numa casa que não lhe pertence.

E colocou sobre a mesa a certidão do registo predial.

— Está a ver a data, Teresa? Comprei este apartamento quatro anos antes do casamento. Com o meu dinheiro. O João não investiu aqui um cêntimo, porque a casa é minha. Ele paga parte das despesas, como combinámos entre nós. A senhora, pelo contrário, mora aqui há dez meses sem pagar nada e, ainda assim, acha-se no direito de me dizer como devo viver dentro da minha própria casa.

Teresa agarrou nos papéis com movimentos bruscos. Passou os olhos pelas folhas. A cor desapareceu-lhe do rosto.

— Isto… João, tu sabias?

— Sabia, claro. Disse-te desde o princípio que o apartamento era da Ana. Tu é que nunca quiseste ouvir.

— Mas tu trabalhas…

— Trabalho. E ganho bastante bem. — João esfregou a ponte do nariz, cansado. — Mas a Ana ganha o dobro do que eu ganho. Tem uma carteira de clientes com quem trabalha há anos. O facto de estar em casa não quer dizer que não faça nada.

Ana retirou outro documento da pasta.

— Contrato de arrendamento. Um T1 no bairro ao lado. Paguei três meses adiantados e também a caução. É para si, Teresa. Considere isto um presente de despedida pelos dez meses de humilhações.

Fez-se silêncio. A sogra ficou a olhar para os papéis sem pestanejar.

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