— Está a correr comigo?
— Estou apenas a recuperar a minha casa. — Ana entrelaçou os dedos sobre o colo, sem levantar a voz. — Amanhã pode ir buscar as chaves. Ou depois de amanhã, se preferir. Mas acabou. Não vou continuar a ouvir, dentro do meu próprio apartamento, que sou uma inútil, uma parasita, uma mulher que não presta. Chega.
— João! — Teresa virou-se para o filho, ofendida. — Vais permitir que ela me fale assim?
João permaneceu calado durante alguns segundos. Depois abanou a cabeça, devagar.
— Mãe, basta. A Ana tem razão. Não podes viver aqui e passar os dias a humilhar a minha mulher. Eu também estou esgotado. Tenho medo de chegar a casa, porque já sei que vou encontrar mais uma discussão. Estou farto de ficar esmagado entre as duas. E estou farto da minha própria cobardia.
Teresa empalideceu.
— Então escolhes ela em vez de mim? A tua mãe?
— Escolho a minha família. — João olhou para Ana. — E escolho a paz. Quero voltar para casa sem sentir um nó no estômago, sem estar sempre à espera da próxima explosão.
Teresa agarrou nos papéis como se lhe queimassem os dedos e saiu da cozinha. Bateu com a porta do quarto com tanta força que os vidros da cristaleira estremeceram.
Na manhã seguinte, apareceu com duas malas. Tinha o rosto fechado, os olhos vermelhos, mas o queixo erguido. Passou por Ana sem lhe dirigir um olhar, pegou nas chaves do novo apartamento que estavam em cima da mesa e, já à entrada, voltou-se.
— Arrancaste-me o meu filho. Ele nunca te vai perdoar isso.
Ana nem desviou os olhos do portátil.
— Eu devolvi-lhe a mulher. E dei-lhe a si exatamente aquilo que tanto exigia: independência. Agora poderá arranjar um emprego a sério, como tantas vezes me aconselhou. Boa sorte, Teresa.
A porta fechou-se com estrondo.
O silêncio que ficou não era vazio. Era pesado, denso, quase palpável. Ana sentiu-o espalhar-se pela casa e, ao mesmo tempo, percebeu a tensão de dez meses a escorrer-lhe lentamente dos ombros. Levantou-se, abriu a janela e deixou entrar o ar frio da manhã. A corrente invadiu a sala, levou consigo o cheiro abafado da presença alheia e, pela primeira vez em muito tempo, o apartamento pareceu-lhe seu.
Uma hora depois, João telefonou.
— Ela está comigo no trabalho. Chora, diz que não tem para onde ir e exige que eu te convença a voltar atrás.
— E tu? O que lhe disseste?
— Que já era altura de aprender a viver sozinha. Que eu não aguentava mais ser puxado de um lado para o outro. — Fez uma pausa. — Disse-lhe que tens razão.
Ana fechou os olhos. Só então soltou o ar que nem sabia estar a prender.
— Obrigada.
— Não. Eu é que tenho de te agradecer por não teres ido embora antes. Fui cobarde, Ana. Durante dez meses inteiros.
— Mas agora já não foste. E é isso que importa.
Três semanas depois, João entrou em casa com um sorriso que ela já não lhe via há muito.
— A minha mãe arranjou emprego.
Ana levantou os olhos do computador.
— Tão depressa?
— Numa mercearia perto da casa dela. Está ao balcão e também ajuda na caixa. — Tirou o casaco, largou-o nas costas da cadeira e sentou-se. — Sabes o que me disse? Que é só provisório. Que em breve vai encontrar uma ocupação decente, não “uma coisa daquelas”.
Ana arqueou uma sobrancelha.
— Um trabalho decente, daqueles em que as pessoas se matam a trabalhar. Palavras dela.
— Exatamente. Mas quando é ela a levantar-se às seis da manhã para atender clientes, já não conta. — João abanou a cabeça, entre o cansaço e uma espécie de espanto. — Ainda não percebeu nada.
— Há de perceber. Nem que seja quando se cansar de mandar na vida dos outros.
João aproximou-se, envolveu-a pela cintura e encostou a testa ao alto da cabeça dela.
— O meu chefe disse que, para a semana, vai haver uma promoção. E o meu ordenado também vai subir bastante.
— João, isso é maravilhoso!
Ele sorriu, agora com um brilho malandro nos olhos.
— Eu disse-lhe que, mesmo assim, vou continuar a ganhar menos do que a minha mulher. — O sorriso abriu-se ainda mais. — E acrescentei uma coisa.
