— Que isso não me incomoda nada. Devias ter visto a cara dele.
Ana soltou uma gargalhada. Pela primeira vez em muitos meses, riu-se sem esforço, sem aquele aperto antigo a prender-lhe o peito.
— Aprendeste mesmo.
— Tive uma excelente professora. — João beijou-lhe a têmpora com ternura. — Desculpa ter demorado tanto a perceber.
— O que importa é que percebeste.
Passado um mês, Teresa ligou. A voz vinha seca, contida, como se cada palavra lhe custasse.
— Gostava de passar aí. Para conversarmos. Com os dois.
Ana olhou para João. Ele encolheu ligeiramente os ombros, deixando a decisão nas mãos dela.
— Venha no sábado. Às seis.
Teresa chegou à hora marcada. Não trazia o velho ar de dona da casa; vinha vestida com uma blusa discreta e segurava um saco de fruta, quase como uma oferta de paz. Sentou-se diante de Ana e ficou calada durante alguns instantes, de olhos postos no prato.
— Como vai o trabalho? — perguntou João, tentando quebrar o peso daquele silêncio.
— Custa. — Teresa apertou os lábios. — Ao fim do dia, mal sinto as pernas. Os clientes são mal-educados. E o ordenado é uma miséria.
Ana levou o copo aos lábios e bebeu um gole de água.
— Mas é um trabalho honesto. Daqueles em que as pessoas se esforçam, lembra-se?
A sogra estremeceu, como se a frase lhe tivesse acertado em cheio. O rosto dela ganhou cor.
— Não vim por causa disso.
— Então veio porquê?
Teresa levantou finalmente os olhos.
— Vim dizer que tinhas razão. Durante dez meses, instalei-me aqui, vivi à vossa custa, não fazia nada e, ainda assim, achava-me no direito de vos ensinar como deviam viver. Convenci-me de que podia fazê-lo só porque sou mãe do João. Mas afinal não podia. A casa não era minha, o dinheiro não era apenas dele, e eu, na verdade, estava aqui a mais.
— Não estava a mais — corrigiu Ana, abanando devagar a cabeça. — Era uma visita. Só que se comportava como se fosse a dona.
— Sim. Uma visita. — Teresa engoliu em seco. — Agora sei o que é depender do dinheiro dos outros e ouvir todos os dias que não prestamos para nada. O meu chefe faz questão de mo recordar constantemente. E agora compreendo o que te fiz sentir.
João aproximou-se da mãe e pousou-lhe as mãos nos ombros. Desta vez, ela não se afastou.
— Não vou pedir perdão — continuou Teresa, com a voz mais baixa. — Nem sei se tenho esse direito. Mas entendi. Esta é a tua casa, Ana. O João escolheu ficar contigo, e foi assim que devia ser. Também percebi que fui uma sogra horrível.
Ana não respondeu de imediato. Levantou-se, deu a volta à mesa e colocou a mão sobre o ombro de Teresa.
— Não guardo rancor. Mas os limites continuam. Pode vir visitar-nos, pode telefonar. O que não pode é voltar a decidir como devo viver. Estamos entendidas?
Teresa assentiu depressa, com um aceno curto e firme.
— Estamos.
Depois de ela sair, João abraçou Ana com força e permaneceu assim durante muito tempo, como se tivesse medo de a largar.
— Nunca pensei que ela fosse capaz de admitir que errou.
— As pessoas mudam quando deixam de ter para onde fugir. — Ana encostou a cabeça ao ombro dele. — A tua mãe habituou-se a mandar porque todos lhe permitiam. Quando lhe tracei uma linha, foi obrigada a olhar para a realidade. E, desta vez, aguentou.
— Estás a defendê-la?
— Não. Só não vejo utilidade em alimentar mágoas quando alguém realmente começa a mudar. — Ana sorriu, cansada, mas em paz. — Eu tenho a minha casa, a minha vida e um marido que finalmente ficou do meu lado. É isso que conta.
Sentaram-se junto à janela. Lá fora, a cidade continuava a murmurar no seu ritmo habitual; ali dentro, porém, no apartamento dos dois, havia silêncio.
