“Não me custa?” Ana devolveu fria, enquanto Catarina tomava a cozinha e João evitava admitir a verdade

Histórias
Entraram com audácia injusta, fria e profundamente indelicada.

— Onde é que a tua mulher se meteu? Ana! Anda cá, não fiques aí escondida!

Catarina entrou pelo corredor adentro sem tocar à campainha, sem avisar, como se a casa lhe pertencesse. Lá em baixo, limitara-se a chamar pelo intercomunicador, e João, por puro reflexo, carregara no botão para abrir. Agora ela já arrancava o impermeável dos ombros, pendurava-o num cabide que não era seu e avaliava o apartamento com olhos de fiscal, como se tivesse ido ali inspecionar uma obra.

Logo atrás dela enfiou-se Tiago, o irmão mais novo de João. Tinha vinte e quatro anos, uma barba rala e irregular, e os ténis cobertos de lama. Cumprimentou Ana com um aceno seco e, quase de imediato, deixou o olhar escorregar para a cozinha.

Ana permaneceu à entrada da sala, observando aquela invasão com uma sensação difícil de nomear. Não era propriamente raiva. Era antes uma frieza súbita, semelhante ao ar húmido de outono que entra por uma janela esquecida aberta.

— O João disse-me que vocês iam fazer obras — anunciou Catarina, já a avançar pelo corredor como quem conhece o caminho. — Ainda bem que viemos a tempo. O Tiago precisa de montar a casa lá na aldeia, e vocês vão pôr tudo novo, não vão? Compram outra vez. Dinheiro não vos falta, graças a Deus.

Disse aquilo com uma naturalidade desarmante, como se fosse a conclusão mais óbvia do mundo, e desapareceu para dentro da cozinha.

Ana virou-se para o marido. João continuava encostado à parede, com a expressão culpada de quem já tomou uma decisão, mas ainda não teve coragem de a confessar em voz alta.

— João — chamou ela, num tom baixo.

— Aninhas, a minha mãe veio só ajudar — respondeu ele, abrindo os braços, atrapalhado. — Ela não faz por mal. O Tiago alugou uma casa e aquilo está vazio, vazio mesmo. Também não te custa assim tanto, pois não?

— Não me custa? — repetiu Ana.

Não soou a pergunta. Foi apenas a devolução fria das palavras dele.

Entretanto, na cozinha, Catarina já dava ordens num tom firme e alto, como uma encarregada de obra:

— Levamos o frigorífico. É grande, está impecável, para o Tiago serve perfeitamente. E o forno também. É encastrado? Não interessa, alguém o tira. E essa placa de indução, claro. Hoje em dia toda a gente usa disto.

Ana entrou na cozinha devagar. O Liebherr encastrado reluzia, discreto, dentro do nicho feito à medida. O forno Bosch, alemão, comprado três anos antes, quando ela se mudara para aquele apartamento, estava perfeitamente integrado nos armários. Tudo aquilo tinha sido pago por ela. Antes do casamento. Numa altura em que João nem sequer fazia parte da sua vida.

— Catarina — disse, mantendo a voz controlada —, estes eletrodomésticos são encastrados. Não se arrancam assim. E nós não íamos substituí-los. A obra é só para trocar as frentes dos armários.

A sogra olhou para ela como se Ana tivesse acabado de dizer uma enorme tolice.

— E então? Compram outros encastrados. Tu recebes prémios de cinco mil euros, o João contou-me. Vivem bem, não vão ficar pobres por causa disto. Já o Tiago tem de começar do zero. Acabou de se mudar.

Ana preparou-se para responder, mas Catarina já se tinha voltado para o filho:

— João, vais ficar aí parado? Tens ferramentas? Ajuda o teu irmão. Vai buscar umas chaves de fendas.

E João — era aí que estava o verdadeiro horror — foi buscar as chaves de fendas.

Regressou com a caixa das ferramentas, agachou-se ao lado de Tiago, que já examinava os encaixes do frigorífico com uma aplicação quase profissional, e começou a murmurar qualquer coisa. Pelo modo como apontava para os lados do móvel, parecia estar a explicar como a placa estava presa.

Ana ficou a olhar. Um minuto. Depois outro.

Por fim, pegou no telemóvel e saiu para o quarto.

Fechou a porta atrás de si, mas não a bateu. Apenas a encostou, com cuidado. Sentou-se na beira da cama e olhou pela janela. Do outro lado do vidro, os ramos nus das árvores balançavam ao vento. O céu, desde manhã, tinha aquele cinzento espesso de setembro, sem uma nesga de luz, sem promessa de calor. No pátio, estava estacionada uma carrinha de caixa aberta. Ana já a tinha visto quando fora abrir a porta.

Portanto, tinham vindo com transporte.

Tinham combinado tudo antes.

João sabia.

O pensamento não a atingiu como um golpe. Instalou-se dentro dela de forma pesada e lisa, como uma laje pousada no peito.

Ana procurou um número na lista de contactos e fez a chamada.

O pai dela trabalhara a vida inteira na construção civil. Conhecia gente, sabia negociar, tinha contactos para quase tudo. Um desses velhos conhecidos, Carlos, alugava precisamente uma casa nos arredores para onde Tiago se estava a mudar. Ana encontrara-o algumas vezes nos aniversários do pai: um homem sólido, de poucas palavras, com aquele ar de quem nunca fazia nada ao acaso.

A conversa durou cerca de dez minutos. Ana falou sem levantar a voz, de maneira objetiva. Explicou que estavam a levar para a casa dele eletrodomésticos encastrados, potentes, pensados para uma instalação elétrica específica. Disse também que, numa casa antiga de aldeia, era bastante provável que a cablagem não estivesse preparada para aquilo. Não se tratava apenas de dinheiro; era uma questão de segurança contra incêndios.

Carlos ouviu-a em silêncio até ao fim. Depois respondeu apenas:

— Percebi. Obrigado por me avisar.

Ana desligou e marcou outro número: o do advogado que prestava serviços ao seu restaurante.

Do outro lado da parede chegavam vozes abafadas. Catarina explicava qualquer coisa a Tiago, enquanto João, de vez em quando, resmungava uma resposta. Mais tarde ouviu-se o tilintar metálico de uma peça a cair ou de uma ferramenta a bater no chão. Depois, o ruído diminuiu.

Ana não saiu do quarto.

Ficou sentada ali durante muito tempo, imóvel, até escutar a porta de entrada fechar-se com força. Até os passos na escada se apagarem. Até, lá em baixo, o motor da carrinha roncar e ganhar vida.

Só então se levantou. Aproximou-se da janela e viu o veículo sair do pátio lentamente, pesado, a arrastar-se como quem leva carga a mais.

Na cozinha, o lugar onde antes estivera o frigorífico era agora uma cavidade aberta. Fios soltos pendiam da parede. O conjunto de móveis que ela escolhera com tanto cuidado parecia mutilado, como uma boca a que tivessem arrancado um dente.

João estava parado no meio da cozinha, com uma chave de fendas na mão, a olhar para o buraco deixado no armário.

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