“Não me custa?” Ana devolveu fria, enquanto Catarina tomava a cozinha e João evitava admitir a verdade

Histórias
Entraram com audácia injusta, fria e profundamente indelicada.

Tinha a expressão de quem acabara de fazer qualquer coisa grave e, mesmo assim, ainda não conseguia compreender inteiramente o alcance do próprio gesto.

— Ana… — começou ele, num tom que tentava ser brando. — Nós compramos outro, pronto. Eu já disse, faz-se em prestações, hoje em dia isso resolve-se, não é nenhum drama…

Ela passou por ele sem lhe responder e seguiu para o corredor. Da arrecadação, tirou duas malas grandes de viagem, as mesmas que tinham levado no verão anterior, quando foram para a praia. Pousou-as no chão, junto aos casacos dele.

João olhou para as malas, depois para ela.

— O que é isto?

— As tuas coisas — respondeu Ana, sem levantar a voz. — Arruma-as tu. Eu não faço ideia do que queres levar.

Ele soltou uma gargalhada curta, nervosa, quase sem som.

— Estás a falar a sério? Ana, isto é uma piada, não é?

Mas ela já se afastava em direção ao quarto. Caminhava devagar, sem bater portas, sem soluços, sem cena. Apenas seguia em frente, como quem já tinha decidido tudo antes de dizer a primeira palavra.

No bolso, trazia o contacto do serralheiro a quem escrevera uma hora antes. As fechaduras seriam mudadas na manhã seguinte. As frentes novas da cozinha, essas, já estavam escolhidas desde agosto; só não tinha tido pressa em avançar com a encomenda.

Agora, pressa era justamente o que deixara de fazer sentido.

Lá fora, a chuva começava a cair — miudinha, fria, insistente, daquelas chuvas de outono que se instalam de manhã e não largam a cidade nem ao fim da tarde, nem durante a noite.

João demorou muito tempo a juntar as coisas.

Ana ouvia-o a circular pela casa: do quarto para a casa de banho, da casa de banho para o corredor, gavetas a abrir, portas de armários a fechar, depois a abrir outra vez. Era evidente que ele esperava que ela aparecesse. Que dissesse alguma coisa. Que aquilo se revelasse apenas uma demonstração, um daqueles teatros femininos que, na cabeça dele, terminavam sempre com reconciliação à mesa da cozinha, chá quente e promessas vagas.

Ana não apareceu.

Quando a porta de entrada, por fim, se fechou com um estalido seco, ela aproximou-se da janela. Alguns minutos depois, viu João surgir no pátio, de casaco aberto, debaixo da chuva, carregando as duas malas. Caminhou até ao carro, enfiou-as na bagageira e sentou-se ao volante. Durante bastante tempo não arrancou. Ficou ali, imóvel, enquanto as gotas escorriam pelo vidro e deformavam a silhueta dele.

Só depois o carro se pôs em movimento.

Ana ficou a vê-lo afastar-se até desaparecer na curva. E então reparou numa sensação estranha dentro de si: não era alívio, mas também não era dor. Era algo entre uma coisa e outra. Como quando se carrega durante muito tempo um saco pesado e finalmente se pousa no chão. A mão ainda guarda a memória do peso, mas o ombro já está livre.

Voltou à cozinha. Observou a cavidade vazia, os fios expostos, os móveis agora órfãos daquela peça arrancada à força. Pegou no telemóvel e escreveu a uma empresa de assistência: que viessem tapar e isolar a instalação como devia ser, antes que aquilo acabasse em curto-circuito ou incêndio. Depois abriu a pasta onde guardava catálogos e orçamentos. As frentes novas estavam lá: verde-acinzentado mate, com acabamento a imitar pedra. Enviou mensagem ao gestor da loja: «Quero avançar com a encomenda.»

Daí em diante, pelo menos, sabia como continuar.

O que se passou nessa mesma noite na aldeia, Ana não soube logo. Foi percebendo aos bocados, por várias bocas. Primeiro, telefonou-lhe o próprio João, já tarde, perto das dez.

— Ana — disse ele, com uma voz estranha, mole, como se tivesse sido fervido por dentro —, há aqui uma situação…

Ela não respondeu. Esperou.

— O Carlos não os deixou entrar. A minha mãe e o Tiago chegaram com os eletrodomésticos, mas ele pôs-se à porta e disse que não autorizava a descarga. Disse que a instalação elétrica da casa é antiga, que não se responsabiliza por incêndios e que no contrato está escrito que não podem fazer alterações sem consentimento dele.

Fez-se um silêncio.

— A minha mãe já me ligou três vezes — acrescentou João. — Diz que está tudo na rua, à chuva. O frigorífico, o forno…

— João — disse Ana —, isso não é problema meu.

— Mas os eletrodomésticos eram nossos…

— Eram meus — corrigiu ela. — Comprei-os antes de casar contigo. E, se quiseres confirmar, um advogado explica-te.

Do outro lado, ele ficou calado durante alguns segundos. Depois perguntou, quase num sopro:

— Tu organizaste isto de propósito?

— Eu avisei uma pessoa sobre um risco de incêndio — respondeu Ana. — Chama-se responsabilidade. Não conspiração.

João não encontrou resposta. Despediu-se de forma confusa e desligou.

Catarina ligou na manhã seguinte, às sete e meia, quando Ana ainda bebia café.

— Tens noção de que passámos a noite em claro por tua causa?! — disparou ela, sem sequer cumprimentar. — A aparelhagem ficou à chuva, o Tiago teve de enfiar tudo como pôde na bagageira, no banco, onde cabia! Aquilo não entra como deve ser! O frigorífico ficou riscado! Quem é que vai pagar isto?

Ana levou a chávena aos lábios e bebeu um gole.

— Catarina — disse, com serenidade —, a senhora apareceu em minha casa sem avisar. Retirou eletrodomésticos do meu apartamento. Eletrodomésticos que eu comprei com o meu dinheiro antes de casar com o seu filho.

— Ai, poupa-me! Casados, é tudo dos dois!

— Não — respondeu Ana. — Nem tudo. Se tiver interesse, um advogado pode esclarecer. Posso enviar-lhe um contacto.

A sogra engasgou-se de indignação. Durante um instante, Ana ouviu-lhe apenas a respiração pesada do outro lado da linha.

— Tu… tu percebes sequer como estás a portar-te? Eu sou mãe! Fiz tudo pelo João, criei-o sozinha, sacrifiquei-me, eu…

— Eu sei — interrompeu Ana. — Criou-o sozinha. Foi um trabalho enorme, e não o diminuo. Mas eu não lhe devo nada. Nem um frigorífico, nem um forno, nem a minha casa.

E desligou.

Depois ficou muito tempo sentada, com a caneca entre as mãos, a olhar pela janela. A chuva não parara durante a noite. Continuava a cair, silenciosa e regular, derrubando as últimas folhas das árvores do pátio. Naquele ano, o outono chegara de repente, sem aviso, como chegam quase sempre as coisas desagradáveis.

João apareceu à porta ao terceiro dia.

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