No restaurante, decidiram renovar a carta de outono, e Ana mergulhou nesse trabalho como se, durante semanas, nada mais existisse. Imaginava combinações, testava massas, corrigia cremes, voltava ao princípio quando alguma coisa não lhe soava certa. Um dos novos doces — uma tarte de figos com ricota — recebeu aprovação imediata do chef e, em pouco tempo, passou a figurar entre os pedidos mais frequentes da casa.
Ana gostava especialmente desse instante: quando algo que nascera das suas mãos seguia para a sala, para pessoas desconhecidas, e regressava sob a forma de pratos vazios e elogios discretos. Era uma alegria limpa, direta, sem qualquer peso escondido.
Os colegas também repararam que ela andava diferente. Mais serena, menos ausente. Um dia, Maria, uma das pasteleiras, disse-lhe sem rodeios:
— Antes, às vezes, ficavas parada a olhar para o nada no meio do turno. Eu achava que era cansaço. Afinal, devias estar a pensar em coisas que te faziam mal.
Ana riu-se. Maria tinha acertado mais do que imaginava.
No fim de novembro, Catarina voltou a telefonar.
Ao ver o número no ecrã, Ana estranhou. Não o bloqueara; simplesmente se esquecera. Ainda assim, atendeu.
A voz da antiga sogra vinha diferente. Não trazia a firmeza autoritária de antes, nem aquele hábito de transformar cada frase numa ordem. Parecia cansada. Quase suplicante. E talvez isso fosse o mais inesperado de tudo.
— Ana, tu és uma mulher inteligente — começou Catarina. — Para quê levar isto tão longe? O João anda perdido, quase não o vejo. Talvez vocês pudessem tentar outra vez…
— Catarina — interrompeu Ana, sem elevar a voz —, nós divorciámo-nos. Isto não foi uma experiência, nem uma encenação para provar alguma coisa. Foi uma decisão.
— Mas ele não é má pessoa. É só… mole.
— Eu sei que ele não é má pessoa — respondeu Ana. — É meigo, é bondoso e não aprendeu a viver sem alguém que decida por ele. A senhora criou-o assim. Essa escolha foi sua. As consequências pertencem-lhe a si e a ele.
Do outro lado, instalou-se um silêncio comprido.
— Então vive sozinha, já que gostas tanto — acabou por dizer Catarina, e a velha acidez regressou-lhe à voz, como se nunca tivesse estado muito longe.
— Vivo bem. Obrigada — disse Ana.
Desta vez, foi ela quem encerrou a conversa. Despediu-se com correção, sem bater portas, sem discursos. Apenas um “até à vista”, e desligou.
Depois, bloqueou o contacto.
Já devia tê-lo feito há muito.
Dezembro chegou com frio seco e tardes que escureciam cedo demais.
Numa dessas noites, Ana voltou para casa tarde. O turno terminara perto das nove. Subiu ao seu andar, abriu a porta e carregou no interruptor. A entrada iluminou-se, e logo adiante surgiu a cozinha: frentes em verde acinzentado, linhas simples, a luz nova por baixo dos armários superiores, que ela pedira para acrescentar quase no fim da montagem.
Descalçou-se, pendurou o casaco e foi direta para a cozinha. Pôs a chaleira ao lume. Do frigorífico — o seu frigorífico novo, aquele que não iria para lado nenhum sem que ela quisesse — tirou a fatia da tarte de pera que deixara guardada de manhã.
Colocou o prato na mesa e preparou o chá.
O vidro da janela embaciou com o calor da casa. Lá fora, as luzes dos prédios vizinhos desfaziam-se em manchas amarelas e alaranjadas, tremidas, vivas.
Havia silêncio. Mas não aquele silêncio que pesa por parecer abandono. Era outro. Um silêncio cheio de descanso, de espaço, de pertença.
Ana pegou no garfo e lembrou-se de que, no dia seguinte, tinha de passar pelo pai para lhe levar uma fatia. Ele estava à espera. Ela prometera.
O resto ficara para trás.
E, pela primeira vez em muito tempo, tudo parecia estar no lugar certo.
A primavera apareceu sem aviso, a meio de março. Num dia, a cidade ainda acordara cinzenta, húmida e fria; no outro, Ana saiu do prédio e sentiu no ar aquele cheiro inconfundível: calçada molhada, terra a aquecer devagar e qualquer coisa nova, difícil de nomear, que só existe nos primeiros dias verdadeiramente amenos.
Foi a pé para o trabalho, apenas porque lhe apeteceu.
Nos meses anteriores, a vida reorganizara-se quase sozinha, sem grandes gestos, como a água dentro de um copo quando finalmente deixam de o abanar. A nova carta do restaurante fora bem recebida. A tarte de pera continuara entre as preferidas dos clientes até fevereiro. Para a primavera, Ana criara uma linha mais leve, com citrinos, ervas frescas e cremes menos densos. E sabia, com aquela certeza tranquila que vinha da experiência, que ia resultar.
De João, chegavam-lhe notícias de longe a longe. Diziam que saíra da casa do amigo e alugara finalmente um quarto decente. Que via a mãe uma vez por semana, não mais do que isso. Que parecia estar a mudar qualquer coisa na própria vida — devagar, com hesitações, mas ainda assim a mudar. Ana não sabia se era verdade. Também já não tinha grande vontade de confirmar. A vida dele pertencia-lhe agora só a ele; seguia por um caminho separado, sem se cruzar com o dela.
Catarina deixara de insistir. Tiago, segundo ouvira comentar, encontrara trabalho na cidade e ficara num quarto alugado. Quanto à casa da aldeia, Carlos arrendara-a a outros inquilinos: um casal sossegado que, ao que tudo indicava, não aparecera com eletrodomésticos encastrados sem avisar ninguém.
Ana pensava nisso sem prazer mesquinho. Apenas como se pensa em algo que, por fim, terminou e assentou.
Na semana anterior, tinha ido visitar o pai. Levou-lhe uma sobremesa nova. Ficaram sentados durante horas, a falar de tudo e de nada, como se esses dois assuntos fossem o mesmo. Ele parecia bem. Brincou, elogiou a tarte e pediu-lhe a receita, embora Ana soubesse que não a iria decorar.
Quase no fim da noite, ele perguntou:
— Estás satisfeita?
Ana ficou um instante calada. Pensou com honestidade, sem responder por impulso.
— Estou — disse depois. — Estou satisfeita.
E era verdade. Uma verdade simples, sem notas de rodapé.
À sua volta, a cidade de primavera fazia o seu ruído habitual: carros a passar, vozes nas esquinas, passos apressados sobre a pedra ainda húmida. Ana caminhava e pensava na receita que lhe ocorrera na noite anterior: creme de limão com manjericão. Uma combinação improvável. Precisava de a experimentar.
À frente dela havia um bom dia.
Disso, tinha a certeza.
