Carregou no botão do videoporteiro. Ana atendeu e, antes mesmo de dizer fosse o que fosse, reconheceu-lhe a voz: rouca, cansada, a voz de quem passara noites a dormir mal.
— Ana, abre-me. Precisamos de falar.
— Fala daí.
Do outro lado houve silêncio.
— Isto não faz sentido — acabou ele por dizer. — Conversar pelo intercomunicador…
— João, durante três anos falaste comigo de formas que também não faziam sentido nenhum — respondeu ela. — Falaste através da tua mãe, dos humores dela, da tensão dela, das ofensas dela. Comparado com isso, o videoporteiro até me parece um avanço.
Ele ficou calado tempo suficiente para ela ouvir apenas o rumor da chuva no pátio. Depois, com menos firmeza:
— Eu errei. Sobre os eletrodomésticos. Não devia ter…
— Não devias ter concordado — completou Ana por ele. — Exatamente. Não devias.
— Deixa-me corrigir isto, Ana.
Ela olhava para o pequeno ecrã. A câmara deformava-lhe um pouco o rosto, mas via-o bem: parado debaixo da pala da entrada, com o casaco encharcado nos ombros e o cabelo colado à testa.
Não sentiu pena. Nem um pouco. E essa ausência de compaixão surpreendeu-a apenas por ser tão limpa. Não era raiva. Era lucidez. Uma coisa transparente e fria, como vidro lavado.
— O serralheiro já mudou as fechaduras, João — disse ela. — Vou juntar as tuas coisas e levo-as onde me disseres. Os documentos tratam-se pelo advogado. Daqui em diante, desenrasca-te.
Desligou o videoporteiro e voltou para a cozinha.
Em cima da mesa estava o catálogo com as amostras das novas frentes dos armários: um verde-acinzentado mate, com textura discreta, quase mineral. O gerente da loja tinha escrito a confirmar a entrega para a semana seguinte. O técnico da montagem já combinara a instalação do frigorífico e do forno novos. Desta vez, Ana escolhera tudo sozinha, com calma, sem pedir aprovação a ninguém, exatamente como sempre quisera.
A casa estava silenciosa, um pouco vazia, mas de uma maneira boa. Como uma divisão depois de uma limpeza profunda, quando se deita fora o que só ocupava espaço e, de repente, há ar para respirar.
Lá fora, a chuva continuava.
As frentes novas chegaram na sexta-feira.
Vieram dois montadores. Trabalharam durante cerca de três horas, com cuidado e poucas conversas. Ana ficou na sala, com o portátil aberto, mas levantava-se de tempos a tempos para espreitar. Observava a cozinha ganhar outra expressão, devagar, peça a peça. O tom verde-acinzentado era ainda melhor ao vivo: sereno, profundo, sem brilho exagerado. O frigorífico encaixou no espaço como se sempre tivesse pertencido àquele sítio. O forno, de um modelo ligeiramente diferente do anterior, mas superior, acendeu-se por dentro com uma luz suave quando o testaram pela primeira vez.
No fim, um dos homens afastou-se um passo, olhou em volta e comentou:
— Ficou uma bela cozinha.
Ana concordou.
Quando eles se foram embora, permaneceu muito tempo parada à entrada, só a olhar. Não pensava em João. Nem em Catarina. Limitava-se a contemplar a sua cozinha, que voltara, enfim, a ser dela.
O divórcio ficou concluído dois meses depois.
João apareceu no tribunal mais magro, calado, com o cabelo cortado muito curto — provavelmente pela mãe, pensou Ana; Catarina sempre lho cortara em casa, ela lembrava-se bem. Ele evitava encará-la. Olhava para a janela, para a mesa, para os próprios dedos. Para qualquer lado menos para ela.
Quase não havia bens a dividir. O apartamento era de Ana, comprado antes do casamento. Os eletrodomésticos também. O advogado organizara tudo de forma limpa, sem pontas soltas. João não contestou uma única cláusula. Assinou onde lhe indicaram, acenou com a cabeça e levantou-se.
Já no corredor, perto da saída, parou. Não se virou para trás, mas disse:
— Eu percebo o que fiz. Só queria que soubesses.
Ana apertou os botões do casaco.
— Ainda bem que percebes — respondeu. — Pode vir a ser-te útil.
E saiu primeiro.
Do que se passava na casa da sogra, Ana foi sabendo por acaso, através de conhecidos em comum que, por alguma razão, achavam indispensável mantê-la informada.
Os aparelhos que Tiago tinha enfiado no carro, à pressa e à chuva, não resistiram bem à viagem. O frigorífico, transportado deitado, ficou com o compressor danificado; uns dias depois de finalmente o instalarem no quarto de Tiago, deixou simplesmente de fazer frio. O forno foi ligado de forma desajeitada. Chamaram um eletricista da zona, que abanou a cabeça e explicou que aquela instalação elétrica não suportava tal potência. A máquina de lavar loiça acabou encostada a um canto, porque não havia escoamento adequado.
Catarina telefonou várias vezes ao filho. Primeiro exigiu dinheiro para reparar os aparelhos, depois para pagar a um eletricista “como deve ser”, e por fim limitava-se a gritar ao telefone sobre filhos ingratos, vidas estragadas e sacrifícios que ninguém valorizava. João ouvia, prometia, adiava. Não fazia nada. Alugara um quarto em casa de um amigo e mal conseguia chegar ao fim do mês. O ordenado era o mesmo de sempre; as gratificações e prémios de Ana, esses, já não existiam ao lado dele.
Tiago também percebeu depressa que viver numa casa separada não significava apenas liberdade. Significava contas da luz, água e gás. Significava uma torneira avariada que ninguém consertava por ele. Significava um frigorífico vazio — e, ainda por cima, incapaz de arrefecer. Ao fim de um mês, voltou para a casa da mãe.
O senhorio, Carlos, rescindiu o contrato sem grandes explicações.
Ana soube disso no início de novembro, quando foi almoçar a casa do pai num domingo. Ele contou-lhe de passagem, entre uma coisa e outra; Carlos mencionara o assunto quando se tinham encontrado. Ana limitou-se a assentir, barrar manteiga numa fatia de pão e mudar de tema.
O pai observou-a com atenção.
— E tu? Como estás, de verdade?
— Estou bem — disse ela. — Mesmo bem.
Ele ficou uns segundos calado. Depois sorriu, só um pouco, pelo canto da boca.
— Mostras-me a cozinha?
— Passa lá por casa. Para a semana vou testar um bolo novo, de pera com especiarias. Serás o primeiro provador.
— Isso já é uma proposta séria — disse o pai, aprovando com a cabeça.
No trabalho, o outono revelou-se particularmente intenso.
