Abriu a porta do armário e retirou lá de dentro uma pasta com documentos. Para sua própria surpresa, não lhe tremiam as mãos.
— Saia já daqui! — gritou Maria, quase sem voz de tão furiosa. — Esta é a casa do meu filho, eu tenho todo o direito de…
— Não tem. — Ana pousou o contrato sobre a cómoda. — Está aqui. A casa foi comprada por mim antes do casamento. Com o meu dinheiro.
Falava baixo, sem levantar o tom, mas cada palavra parecia cortar o ar da sala como uma lâmina.
— Portanto, quem vai sair agora é a senhora. E vai sair já.
Maria agarrou nos papéis com dedos trémulos e percorreu as linhas à pressa. Em poucos segundos, a cor fugiu-lhe do rosto.
— João! — berrou ela. — João, vem aqui imediatamente!
— O João está a trabalhar. Quando chegar, falaremos os dois com ele.
— Tu… tu estás a destruir esta família! Estás a pôr o meu filho contra a própria mãe!
— Estou a proteger a minha família de alguém que, durante três anos, tratou a nossa casa como se fosse propriedade sua.
Maria começou a andar de um lado para o outro, encurralada entre aquelas paredes azuis que ela própria tinha imposto, como monumentos à sua “dedicação”.
— O João nunca me vai abandonar! Eu sou mãe dele!
— E eu sou mulher dele. E mãe do filho dele. — Ana aproximou-se da janela, sem desviar o olhar. — Veremos quem ele decide respeitar.
— Mas quem pensas que és?!
— Ninguém de especial. Apenas percebi, finalmente, que o silêncio é muitas vezes tomado por autorização.
Ana voltou-se para ela.
— Durante três anos convenci-me de que podia aguentar. Que a senhora acabaria por perceber os limites. Mas não se habitua a limites. A senhora ocupa espaço, toma conta, invade.
— Eu só quis ajudar!
— Não. A senhora quis mandar. E mandou, enquanto eu me calei.
João chegou cerca de uma hora depois. Encontrou a mãe sentada na cozinha, de olhos vermelhos, e Ana na sala, com os documentos ainda na mão.
— Que se passa aqui? — perguntou, olhando de uma para a outra, sem compreender.
— A tua mulher perdeu a cabeça! — Maria levantou-se de rompante. — Quer pôr-me na rua! Está a ameaçar-me!
— Ana?
— Expliquei apenas de quem é esta casa — respondeu ela, serena. — E marquei os limites.
— Que limites?
— Os mais básicos. Não entrar sem ser convidada. Não dar ordens numa casa que não é sua. Não transformar o quarto do nosso filho sem autorização dos pais.
João ficou em silêncio. O olhar ia da mãe para a mulher, e da mulher para a mãe.
— João, diz alguma coisa! — suplicou Maria, agarrando-se a ele. — Eu sou tua mãe! Tenho direito…
— A quê? — Ana estendeu o contrato ao marido. — Que direito é esse, dentro da minha casa?
