João ficou com o contrato nas mãos e percorreu as linhas em silêncio. À medida que lia, a expressão fechava-se-lhe.
— Mãe… — disse por fim, num tom baixo. — A Ana tem razão.
— Como disseste?!
— Passaste dos limites. — João ergueu os olhos para ela. — Esta casa é dela. É nossa família.
Maria cambaleou ligeiramente, como se aquela frase lhe tivesse acertado em cheio.
— Então é isso? Vais escolhê-la a ela?
— Estou a escolher a minha mulher e o meu filho.
— Muito bonito — sibilou a sogra, agarrando na mala e avançando para o corredor. — Quando ela te puser fora, não venhas chorar para a minha porta!
Ana não levantou a voz.
— Quando aprender a respeitar o espaço dos outros, será sempre bem-vinda. Se não aprender, então adeus.
A porta bateu com força. Depois, no apartamento, ficou apenas um silêncio espesso.
— Talvez tenhas sido dura demais — murmurou João, envolvendo Ana nos braços. — Ela é minha mãe, afinal…
— Ela estava a conquistar terreno. Devagar, mas sem parar. — Ana encostou-se ao peito dele. — Mais um ano e estaria a decidir como alimentamos o bebé. Mais dois e escolhia a escola por nós.
— E se ela nunca mais voltar?
— Volta. Assim que perceber quais são as regras.
Um mês depois, o telefone tocou. Era Maria. A voz vinha contida, quase humilde.
— Eu podia… passar aí? Só para ver como estão.
— Claro. Amanhã à tarde dá-lhe jeito?
— E posso levar alguma coisa para o meu neto?
— Pode. Mas o que fica ou não fica cá em casa, isso decido eu.
Houve uma pausa curta.
— Compreendo.
No dia seguinte, Maria apareceu com um pequeno peluche e um ramo de flores. À entrada, descalçou-se sem que ninguém lhe pedisse e perguntou se podia espreitar o quarto do bebé.
— Pintaram outra vez — comentou, olhando para as paredes amarelas.
— Pintámos. Da nossa cor.
Maria demorou alguns segundos antes de responder.
— Está bonito. Acolhedor.
Durante o chá, a conversa foi escassa. Ainda assim, pela primeira vez em três anos, não havia tensão a pesar no ar.
Quando se preparava para sair, Maria parou junto à porta.
— Posso vir de vez em quando? Quando o pequenino nascer?
— Pode. Quando for convidada.
— Quando for convidada — repetiu ela, acenando devagar.
Ana fechou a porta atrás da sogra e ficou encostada a ela, de olhos fechados. O bebé deu um pontapé forte, alegre, quase triunfante.
Ela pousou a mão sobre a barriga e sussurrou:
— Agora sim, meu amor. Agora estamos em casa. Numa casa verdadeira, onde a tua mãe sabe proteger o que importa.
No quarto amarelo, a cortina com coelhinhos balançava suavemente — a mesma que tinham comprado no dia em que souberam que tu virias.
