— Desaparece daqui! — berrou a sogra dentro da minha própria casa. Só que ela não fazia ideia de que, no fim, seria precisamente ela a primeira a ser posta na rua.
Ana dobrava pequenos babygrows quando ouviu a chave rodar na fechadura. O coração falhou-lhe por um instante. Miguel estava no trabalho, e a chave suplente ficara com a mãe dele “para alguma urgência”. O problema era que Teresa chamava urgência a qualquer dia da semana.
— Aninha! Onde te meteste?
Ana apareceu no corredor, puxando instintivamente a camisola que já lhe apertava a barriga. A sogra estava à entrada, carregada de sacos de uma loja de bricolage, e já despia o casaco como se a casa lhe pertencesse.
— Boa tarde, Teresa.

— Boa tarde? Daqui a nada é noite — resmungou ela, avançando para a sala sem pedir licença. Olhou em redor com ar de inspetora. — Continuas a passar os dias enfiada em casa? No meu tempo, trabalhava-se até quase ao parto.
Em três anos de casamento, Ana aprendera uma regra simples: concordar cansava menos do que discutir. Viviam separados dela; que importância tinha o que Teresa pensava?
— Trouxe tinta — anunciou a sogra, despejando latas sobre o sofá. — Azul. Uma cor decente, não aquele amarelo sem jeito que vocês escolheram.
Ana fixou as latas. Ela e Miguel tinham passado duas semanas a decidir a cor do quarto do bebé, imaginando cada detalhe, cada móvel, cada manhã naquela divisão.
— Mas nós já pintámos…
— Então pintam outra vez — cortou Teresa, encaminhando-se logo para o quarto do bebé. — Um rapaz precisa de uma cor de rapaz, não dessa coisa indefinida.
Parou no meio do quarto com os braços cruzados, como uma chefe de fiscalização diante de uma obra mal feita.
— Péssimo. O berço não pode ficar junto à janela! E estas cortinas com coelhinhos… Isto é para um bebé ou para quê?
— Nós gostamos assim…
— Eu não gosto. E o meu neto também não vai gostar. — Teresa agarrou uma das cortinas com evidente desprezo. — Amanhã mudamos isto tudo.
Ana não respondeu. Como de costume. Dentro dela, o bebé deu-lhe um pontapé leve, quase como se também protestasse contra aquela estranha que decidia sobre o seu quarto.
Miguel chegou tarde. Ana esperava-o na cozinha, onde as latas de tinta permaneciam alinhadas como troféus de uma invasão.
— A tua mãe esteve cá?
— Trouxe tinta. Quer pintar outra vez o quarto do bebé.
Miguel passou os dedos pela ponte do nariz, gesto que Ana já conhecia demasiado bem: era o sinal de que qualquer conversa sobre a mãe o punha nervoso.
— Talvez o azul até fique melhor…
— Fomos nós que escolhemos o amarelo.
