— Sim, mas… — Miguel desviou o olhar. — Ela só quer ajudar.
— E eu? O que é que eu quero conta para alguma coisa?
A pergunta ficou suspensa entre os dois, pesada e sem resposta. Miguel abriu o frigorífico e começou a remexer nas prateleiras, fingindo procurar algo indispensável.
Na manhã seguinte, Teresa apareceu com um pintor. Era um rapaz magro, de ar assustado, que parecia já se arrepender de ter aceitado aquele serviço.
— Este é o Máximo. Despacha isto num instante — anunciou ela, dando ordens como se a casa lhe pertencesse. — Comecem pelo teto.
Ana pôs-se diante da porta do quarto.
— Teresa, talvez fosse melhor esperarmos. O Miguel ainda nem viu…
— Para quê incomodá-lo com isso? Os homens não percebem nada de decoração — cortou ela, enquanto já tirava brinquedos e caixas do quarto. — Isto é assunto de mulheres.
Curiosamente, quando chegava a altura de pagar obras, móveis ou tinta, tudo passava a ser assunto de homens.
Ana refugiou-se na cozinha. Sentou-se, uma mão pousada sobre a barriga, e ouviu vozes estranhas a invadirem o espaço que ela preparara com tanto cuidado. O bebé mexia-se sem descanso, como se também pressentisse aquela violação silenciosa.
— Dá mais uma demão! Não vês que o amarelo ainda se nota? — comandava Teresa, lá de dentro.
Ao anoitecer, o quarto estava azul. Um azul frio, duro, sem alma. Parecia outro quarto. Parecia outra casa.
— Então? — Teresa contemplou o resultado com satisfação. — Agora sim. Agora vê-se que aqui vai crescer um rapaz.
Ana permaneceu à entrada, incapaz de reconhecer o cantinho que, poucos dias antes, arrumara com ternura, imaginando histórias, noites sem sono e mãos pequeninas agarradas às suas.
Uma semana depois, a sogra voltou. Desta vez trazia cortinados às riscas, de um azul escuro e pesado.
— Aqueles coelhinhos não fazem sentido nenhum aqui. Um menino precisa de um ambiente sério.
E, sem pedir licença, começou a arrancar os cortinados antigos. Eram novos. Ana e Miguel tinham-nos comprado juntos no mesmo dia em que souberam que iam ter um filho. Tinham rido na loja, discutido padrões, escolhido aqueles por serem alegres.
— Mas esses cortinados são novos…
— Novo não quer dizer adequado.
Foi então que algo dentro de Ana se quebrou. Não com estrondo, mas com uma nitidez definitiva.
— Pare.
Teresa virou apenas a cabeça.
— Como?
— Largue os cortinados. Agora.
A sogra rodou devagar, ainda com o tecido preso nas mãos.
— Tu perdeste o juízo?
— Esta é a minha casa. E este é o quarto do meu filho.
Teresa olhou para ela como se Ana tivesse começado a falar numa língua desconhecida.
— Tua? Que conversa é essa? Esta casa é do meu filho!
— O seu filho vive aqui. A casa, porém, é minha.
— Como te atreves a falar assim comigo? — Teresa empalideceu, e os cortinados escorregaram-lhe dos dedos. — Eu mato-me por vocês, penso no meu neto!
— Não. A senhora pensa em si. Em pôr tudo à sua maneira, como se nós não existíssemos.
Ana endireitou os ombros e caminhou até ao armário.
