— A ti, eu não convidei.
Teresa disse-o sem levantar a voz, como se estivesse apenas a anunciar que ia chover.
Ana ficou imóvel no hall, ainda com o casaco vestido. Ao lado dela estavam os dois filhos: Tiago, de dez anos, e Rita, de seis. As crianças já tinham tirado os gorros e olhavam, curiosas, para a mesa posta como se fosse dia de grande festa.
A casa cheirava a empadas acabadas de fazer, pato assado e bolo de baunilha. Sobre a toalha brilhava o melhor serviço, aquele que a sogra só tirava do armário em ocasiões importantes.
Ana voltou os olhos, confusa, para o marido.

— João…
Ele, porém, desviou o olhar.
— Mãe, vá lá…
— Vá lá o quê? — cortou Teresa. — Fui muito clara. Hoje é um almoço de família. Para os meus netos. Não para qualquer pessoa que apareça.
Ana sentiu o peito apertar.
— Eu sou a mãe deles.
— Isso não muda nada.
Teresa sorriu para as crianças.
— Tiago, Ritinha, entrem. A avó fez os vossos salgadinhos preferidos.
O rapaz não se mexeu.
A menina agarrou com mais força a mão da mãe.
Ana murmurou:
— Vão, queridos. Eu espero por vocês no carro.
Mas Tiago abanou a cabeça.
— Não.
Teresa franziu o sobrolho.
— Como assim, não?
O menino olhou primeiro para a avó e depois para Ana.
— Porque a mãe também é família.
O silêncio instalou-se no hall de tal maneira que até o tique-taque do relógio da parede parecia mais alto.
João tossiu, nervoso.
— Tiago, não comeces.
Mas o filho já dera um passo para trás, ficando junto da mãe.
— Se a mãe não foi convidada, nós também não ficamos.
Teresa soltou uma gargalhada curta.
— Que disparate. Daqui a cinco minutos já nem se lembram disso.
Estendeu-lhes uma caixa de bombons.
— Vejam o que a avó comprou.
Rita perguntou baixinho:
— A mãe também pode comer um?
— Não.
— Porquê?
— Porque isto é uma festa para crianças.
A pequena fez uma careta triste.
— Mas a mãe também gosta de doces…
Ana sentiu os olhos arderem.
Em dez anos de casamento, habituara-se às frases afiadas da sogra. Teresa repetia sempre a mesma cantilena:
— O nosso João merecia melhor.
— És simples demais para ele.
— Se não fosse por nós, ele já tinha encontrado uma mulher decente.
Ana calava-se.
Pela paz da casa.
Pelos filhos.
Pelo marido.
Mas naquele dia tudo estava a acontecer diante das crianças. E isso já passava todos os limites.
Seis meses antes, Ana tentara conversar com João.
— Isto está a dar cabo de mim.
— Agora é porquê?
— A tua mãe humilha-me constantemente.
Ele suspirara, cansado.
— Ela é assim, não ligues.
— Mas tu ouves o que ela diz.
— Ignora.
— João…
— Não me obrigues a escolher entre vocês.
Na altura, Ana não respondeu. Contudo, pela primeira vez percebeu com nitidez: o marido nunca a iria defender.
Depois daquelas palavras da sogra, voltou a vestir o casaco com movimentos lentos.
— Está bem.
Sorriu aos filhos, tentando não tremer.
— Vamos para casa.
— Mãe…
— Está tudo bem.
Esforçava-se por soar tranquila. Muito tranquila.
Então Tiago virou-se de novo para Teresa.
— Avó.
— Sim?
— Se não convidaste a mãe, então também não nos convidaste a nós.
Teresa fez um gesto irritado com a mão.
— Que parvoíce! Vocês são crianças!
— Somos uma família.
João, finalmente, interveio:
— Mãe, talvez já chegue.
— Não! — A voz de Teresa subiu. — Enquanto esta mulher estiver ao lado dele, o meu filho nunca será feliz.
Ana levantou a cabeça devagar.
Em dez anos, era a primeira vez que ouvia aquilo de forma tão direta.
Não era uma indireta.
Não era uma provocação disfarçada.
Era uma confissão aberta.
João ficou lívido.
— Mãe…
— Mãe o quê? Eu sempre disse a verdade!
Ana encarou o marido.
— Tu também pensas assim?
Ele não respondeu.
E aquele silêncio bastou.
Ana segurou nas mãos dos filhos.
— Vamos embora.
