Saíram.
A porta fechou-se atrás deles com um estrondo seco.
Teresa ficou convencida de que, dali a meia hora, os netos estariam de volta, arrependidos, a pedir para entrar. Não fazia ideia de que aquele almoço de domingo, preparado como se fosse uma celebração, acabara de marcar o início de uma mudança que ela jamais imaginara. E, poucas horas depois, a mesa posta com tanto orgulho continuaria intacta, como se ninguém tivesse sido esperado ali.
Durante alguns minutos, Teresa permaneceu junto à entrada, de ouvido atento, certa de que a campainha tocaria a qualquer instante.
— Eles já voltam — disse ao filho, com uma segurança forçada. — Crianças não aguentam muito tempo. Onde é que vão encontrar empadas como as minhas?
João não respondeu.
Estava à janela, a ver o carro de Ana afastar-se lentamente do prédio. No banco de trás, Tiago segurava Rita contra si, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro.
Nenhum deles olhou para trás.
— Estás a ver? Nem um adeus — resmungou Teresa, irritada. — Ela virou-os todos contra mim.
— Mãe… — murmurou João. — A Ana nunca disse uma palavra má sobre ti à frente deles.
— Pois claro. É esperta.
Pela primeira vez em muito tempo, João fitou a mãe com atenção verdadeira.
— E se o problema não for ela?
Teresa soltou um riso curto, quase um desprezo.
— Não comeces.
Entretanto, em casa, Ana ajudou os filhos a despirem os casacos e a mudarem de roupa. Tentava sorrir, mas por dentro sentia tudo a latejar.
Rita aproximou-se e abraçou-a pela cintura.
— Mamã, estás a chorar?
Ana limpou depressa os olhos.
— Não, meu amor. Estou só cansada.
Tiago, sem dizer nada, pousou sobre a mesa o saco com o presente que tinham preparado para a avó. Tinham escolhido juntos uma manta bonita. Ele juntara durante semanas o dinheiro que recebia para comprar também o chocolate preferido dela.
Agora, o presente ficava ali, fechado, sem mãos que o recebessem.
— Mãe…
— Sim?
— Fizemos bem?
Ana ajoelhou-se diante deles, para ficar à altura dos seus olhos.
— Foi uma decisão vossa.
— Ficámos muito tristes por tua causa — disse Tiago, baixinho.
Ela puxou os dois para junto de si e abraçou-os com força.
— Obrigada.
Depois afastou-se apenas o suficiente para os olhar.
— Mas quero que se lembrem de uma coisa. Nunca respondam à falta de respeito com falta de respeito. E nunca obriguem ninguém a escolher entre pessoas que ama.
As crianças assentiram em silêncio.
Enquanto isso, no apartamento de Teresa, a mesa de festa continuava sem ser tocada. O pato assado arrefecia. As empadas começavam a secar. As velas tinham ardido quase até ao fim.
De cinco em cinco minutos, Teresa ia à janela.
— Já passaram quase duas horas…
João olhou para o relógio.
— Eles não vêm.
— Vêm, sim!
Ele respirou fundo, cansado.
— Mãe… tu disseste à Ana que ela não tinha sido convidada.
— E então?
— Para os miúdos, isso soou como se tivesses expulsado a mãe deles.
— São pequenos. Não percebem essas coisas.
João abanou a cabeça devagar.
— Tenho medo que seja precisamente o contrário. Eles perceberam tudo.
Ao fim da tarde, o telefone tocou. Teresa agarrou-o de imediato, como se aquela chamada fosse a prova de que tinha razão.
— Estou?
Mas era apenas uma vizinha.
— Então, como correu a festa?
Teresa forçou um sorriso, embora ninguém a visse.
— Muito bem. Maravilhosamente.
— Que estranho… está tudo tão calado aí.
Teresa sentiu o embaraço subir-lhe ao rosto. Olhou para a mesa impecavelmente preparada.
E para as cadeiras vazias à volta dela.
No dia seguinte, João foi a casa da mulher. Ana abriu-lhe a porta e ficou parada no limiar.
— Posso entrar?
Ela afastou-se em silêncio.
As crianças estavam no quarto. Quando o viram, levantaram os olhos.
— Olá, pai.
— Olá.
João aproximou-se, querendo abraçar o filho, mas Tiago falou antes que ele pudesse fazê-lo.
— Pai…
— Diz.
— Porque é que não disseste nada à avó?
A pergunta caiu sobre ele com mais peso do que qualquer acusação.
João ficou calado.
— Tu viste que a mãe estava magoada — continuou o rapaz.
Rita chegou-se também para perto.
— Papá… se alguém me magoar, tu proteges-me, não proteges?
João sentiu qualquer coisa apertar-se dentro do peito.
— Claro que sim.
— Então porque é que não protegeste a mamã?
Desta vez, não encontrou resposta.
